domingo, 6 de novembro de 2011

Capítulo 15 - Determinação

 Soraya de Peixes.

            Medo. Esse foi o sentimento que tomou posse do corpo de Soraya de uma hora para outra, fazendo-a ficar tonta e parar sua corrida. Mas de onde vinha aquilo? Como que lendo seus pensamentos ela pôde sentir um cosmo maligno explodindo e ao se virar na direção da qual ele vinha ela pôde ver um prédio enorme pegando fogo e sentir o cosmo de Rayssa se apagando aos poucos. Não havia muito tempo, então ela fechou os olhos.
            Ao abri-los ela viu de perto o prédio incendiado. Ao longe, pessoas corriam e algumas olhavam paralisadas para os estragos. Ao se voltar novamente para o prédio ela pôde ver sua melhor amiga. Seu estado não era dos melhores... As partes da armadura que protegiam os braços estavam completamente estraçalhadas e não havia mais elmo em sua cabeça.
            – Rayssa, por favor, agüenta você consegue! Isso não é nada pra você, certo? Vamos lá!
            – Desculpa... Não consegui ser tão forte. Me perdoa... – Soraya se calou e uma lágrima caiu no rosto de Rayssa. – Ei, pede pra todo mundo ser forte e segurar firme. Vocês vão conseguir sair dessa.
            Uma lágrima saiu dos os olhos de Rayssa antes dos mesmos ficarem acinzentados e sem foco. Sua pele ficou mais pálida do que realmente era.
            Uma dor descomunal se espalhou pela cabeça da amazona de Peixes, mas não era uma dor física. Era pior, muito pior. Para Soraya, Rayssa era uma das pessoas mais importantes na sua vida, e agora ela se fora.
            A dor que ela sentia não foi embora quando ela ouviu o barulho de passos se aproximando. Soraya enxugou as lágrimas e se levantou deixando o corpo da amiga sozinho por um tempo. Primeiro veio o choque. O rosto ensangüentado de Roberto a olhava fixamente, e sua armadura o denunciava como o assassino.
            – Você?! Desgraçado! Como você pôde?! – Soraya gritava a plenos pulmões na direção do recém descoberto filho de Apolo.
            – Ela disse que ia ficar no meu caminho... Eu avisei que se fizesse isso ela com certeza morreria... – Respondeu ele com uma calma surpreendente.
            – A é? Então vamos! Venha me matar também! Eu vou ficar no seu caminho agora!
            Mas ela não esperou a iniciativa de Roberto, ela saltou em sua direção e começou uma tempestade de golpes velozes, sem dar chance de defesa ao inimigo, que gritava a cada golpe que recebia.
            A raiva que se apoderava da amazona a deixava mais forte. Sem se dar conta seus punhos adquiriram uma tonalidade de vermelho sangue, deixando os golpes cada vez mais poderosos.
            Ela segurou o braço do oponente e o atirou no chão. O impacto do corpo de Roberto contra o chão fez com que um buraco fosse aberto. Soraya pulou em cima dele e apertou seu pescoço com firmeza, fazendo com que ele ficasse sem ar.
            – Não... – Disse Soraya afrouxando o aperto. – Você não merece tanta misericórdia... Se levante e lute como lutou com Rayssa! Ela não morreria pelas mãos de um cavaleiro tão fraco como você!
            Dizendo isso ela se levantou e se afastou, dando espaço para ele fazer o mesmo.
            Roberto se levantou devagar, esfregando o pescoço e fazendo uma careta de dor. Seu rosto ficou surpreso ao olhar para a amazona e ver que seu cosmo estava emanando um brilho vermelho e perigoso.
            – Vamos! Eu quero ver o que você pode fazer comigo! – Gritou Soraya.
            Ela viu, então, Roberto vindo para cima dela numa velocidade alta demais para alguém que recebeu tantas agulhas escarlates. Apesar de sua velocidade ser alta, seus golpes eram fracos, e foram defendidos com facilidade pela amazona, que não perdeu tempo em revidar a seqüencia, finalizando com uma leve onda de energia que fez com que ele voltasse ao local em que estava ao inicio do combate.
            Ele se levantou novamente com um olhar completamente louco no rosto. Com uma velocidade completamente diferente da anterior ele correu até Soraya, se esquivou dos dois primeiros socos depois a abraçou.
            – BAFO DA SERPENTE! – Gritou ele.
            Uma fumaça fedorenta começou a circular em volta de ambos, Roberto esperou alguns segundos antes de soltá-la e deixá-la sozinha envolta na fumaça.
            Nesse exato momento Soraya percebeu que havia sido essa técnica que havia matado sua melhor amiga. Em meio ao cheiro de enxofre e cinzas ela podia sentir claramente um delicado aroma de veneno de cobra, mais precisamente cascavel, o mais básico dos venenos.
            Ela saiu daquela fumaça em direção ao seu oponente que a olhava com uma expressão surpresa na face. Ao se aproximar do filho de Apolo Soraya desferiu um soco em seu rosto e pôde até sentir um ou dois dentes saindo do lugar.
            – Então foi assim que você matou Rayssa. – Falou a amazona para o inimigo caído. – Uma técnica formidável, tenho que admitir, mas não vai funcionar comigo.
            – Como? – Perguntou ele com a voz fraca.
            – Eu passei todo o meu treinamento em meio a rosas venenosas. – Explicou ela. – Por causa disso me tornei imune a todo e qualquer tipo de veneno. – O filho de Apolo olhou-a com um olhar amedrontado. – Agora, deixa eu te mostrar o que é um veneno de verdade. – Uma rosa vermelha surgiu na mão de Soraya. – ROSAS DIABÓLICAS REAIS!
            As rosas envolveram Roberto num turbilhão vermelho, mais alguns segundos e Roberto estaria acabado. Mas uma mudança no clima do ambiente chamou sua atenção. E antes que ela pudesse fazer qualquer coisa o corpo de Roberto explodiu em chamas, queimando as rosas que o envolviam.
            – Sua tola! O que a fez pensar que eu também não seria imune a veneno? Como acha que consigo emanar a fumaça misturada com veneno?!
            Dizendo isso ele saltou em direção a amazona de Peixes na maior velocidade possível, e seus golpes não eram mais tão fáceis de segurar, limitando Soraya a apenas se defender.
            A chuva de golpes foi longa e cansativa, mas Soraya não deu abertura, assim como Roberto não deixou passar nada. Seus golpes eram precisos e fatais, o menor erro de Soraya poderia custar a luta.
            – Você vai morrer vergonhosamente! Que nem a sua amiguinha ali! – Disse o filho de Apolo, rindo descontroladamente.
            E aquela foi à gota d’água. O cosmo de Soraya explodiu em pura raiva, o impacto fez com que Roberto se afastasse um pouco, dando espaço suficiente para a amazona de recompor e atacar.
            Com um giro ela chutou o rosto do inimigo, que defendeu com apenas uma das mãos, em seguida ela socou seu queixo fazendo com que ele levantasse vôo, para depois ir em disparada ao seu encontro socando seu estomago e seu rosto. Para finalizar, Soraya segurou o braço do oponente, e atirou-o de volta ao chão.
            – Heróis não morrem em vão. – Disse ela.
            – Heróis morrem sim! – Gritou Roberto se levantando. – Morrem porque são tolos o suficiente para lutar por uma humanidade que não tem mais salvação! Morrem porque confiam numa causa perdida!
            – Você está errado... O que te faz pensar que a humanidade não tem salvação?
            – Você não vê o que acontece no mundo! Só o que há é destruição!
            – Não, não é só isso. Você nunca amou ninguém? Nunca sentiu nada assim por ninguém?
            A cara de Roberto se contorceu numa careta de angustia e ele voltou a atacar, mas seu cosmo estava diferente dessa vez, estava triste, e isso fez com que Soraya parasse de atacar, fazendo com que recebesse em cheio o soco de Roberto.
            – Ela morreu... Foi assassinada! Agora me diz... Vale a pena lutar por um mundo como esse? – Uma lágrima caiu do seu olho, mas evaporou rapidamente. – Eu tenho certeza que não.
            Ele encheu o punho com energia e descarregou-a em cima da amazona, que foi rápida o suficiente para rolar e se esquivar.
            – Destruir o mundo não vai trazê-la e volta! – Disse ela se levantando e prendendo Roberto em uma chave de braço. – Não deixe esse sentimento ser consumido.
            – Me destruir também não vai trazer Rayssa de volta! – Disse ele se livrando da chave de braço de modo que Soraya ficou mais uma vez de frente para ele.
            – Eu já me conformei com isso... No começo eu estava com raiva, mas passou, e eu não quero te destruir, mas terei que fazê-lo se você não tirar da cabeça essa idéia de destruição.
            – Sinto muito lhe informar. Mas alguém tem que pagar!
            Ele voltou a atacar, com mais raiva e mais poderosos do que antes, apesar do cansaço tanto físico quanto emocional.
            Eles entraram mais uma vez em um combate corpo a corpo que os prendeu no mesmo nível. Ambos atacavam ambos defendias.
            – Pelo amor de Deus, Roberto! – Gritou Soraya em meio a troca de socos. – Pense no que está fazendo! Você não pode culpar toda a humanidade pelo erro de uma pessoa!
            – Sim eu posso! – Gritou ele de volta. – Não só posso como já estou fazendo isso. Me responda você, você não se cansa de apanhar por essa humanidade que nunca vai lhe agradecer pelo que você fez?!
            Soraya encheu sua mão de poder e o disparou contra o rosto do oponente. O que fez com que ele se afastasse.
            – Eu não faço isso em busca de recompensas, ou de agradecimento. Eu faço isso porque acredito que ainda podemos melhorar. Podemos virar um mundo melhor.
            – Tola.
            Várias rosas negras se materializaram entre os dedos da amazona de Peixes e ela caminhou lentamente em direção ao filho de Apolo.
            – A rosa negra que dilacera tudo o que toca... – Sussurrou Soraya. – ROSAS PIRANHAS!
            Uma chuva de pétalas negras voou para cima de Roberto, e em cada centímetro do seu corpo que tocava abria cortes feios. Sua armadura começava a rachar e algumas partes, como os braços, já haviam caído.
            Depois de alguns segundos sua armadura estava em pedaços. Não havia mais proteção em seu tórax, as únicas partes da armadura que restaram ao final do ataque foram as que protegiam as pernas.
            Roberto caiu de quatro no chão, ofegante e sangrando.
            – Qual é o problema? – Perguntou ele. – Esse golpe poderia ter me matado se você quisesse. Porque não acabou logo comigo?
            – Porque eu sei que você não é uma pessoa má, Roberto. – Respondeu a amazona. – Por favor, desista disso tudo, toda essa raiva...
            – Eu não consigo.
            – Por quê?
            – Ela era tudo que eu tinha... – Lágrimas começaram a surgir de seus olhos e Soraya pode sentir uma tristeza profunda vindo do cavaleiro. – Depois que eu fui para o Japão, eu estava só... Ninguém deu a mínima pra o estrangeiro, da última vez que eu fui morar lá, eu era só uma criança. Mas agora foi diferente... Eu estava sem emprego, com fome e com sede... Ela foi a única pessoa que me ajudou. Ela me abrigou na sua casa, me deu água, comida e umas roupas velhas do seu pai... Ela também mexeu os pauzinhos e fez com que o pai dela me desse um emprego na siderúrgica na qual ele trabalhava. – Roberto soluçava como ela nunca havia visto. – Alguns meses depois nós começamos a namorar, eu a amava como nunca amei ninguém em toda minha vida... Então, alguns dias atrás, nós estávamos caminhando e rindo... – Os soluços se transformaram em um leve sorriso carregado de tristeza. – Fazíamos planos, sabe? Coisas do tipo: “Quando nós nos casarmos...” Então um grupo de assaltantes nos abordou, me deram uma bela surra, levaram tudo que eu tinha, e a mataram a facadas diante dos meus olhos. – As lágrimas desapareceram e seu cosmo voltou a ficar agressivo.
            – Roberto... – Falou Soraya se aproximando. – Eu não.
            – Se finja que se importa! – Gritou ele se afastando de Soraya, evitando o seu toque. – Você quer me matar, isso não a torna melhor do que os assassinos!
            – E o que faz com que você se torne melhor do que eles?
            – Eu não estou nem aí pra mim! Minha vida acabou! Eu não tenho mais nada a perder... Estou pouco me fudendo pro resto do mundo! Só depois que eu recebi esse poder e essa armadura eu percebi que poderia me vingar! E isso é a única coisa que importa agora!
            Ele correu até Soraya e começou outro combate. Ela não tinha mais coragem de atacar, ela apenas se esquivava.
            – Vamos covarde! Lute!
            Ela não disse nada, apenas continuou se esquivando, porém um dos socos a acertou, ela perdeu o equilíbrio e caiu. Roberto a ergueu no ar.
            – PRESAS SOLARES!
            Garras surgiram no lugar das unhas do filho de Apolo, e sua mão pegou fogo. Ele atravessou as garras, no estomago de Soraya e uma queimação enorme tomou conta do seu corpo antes de ela começar a sangrar.
            – Eu queria ter que evitar isso... – Uma rosa branca surgiu em sua mão. – ROSA SANGRENTA!
            A rosa foi disparada contra o peito de Roberto e lá se fixou.
            – O que é isso? Você acha que isso vai me matar? – Ele tentou tirar à rosa do peito, mas foi em vão. – O que é isso? Por que eu não consigo tirar?
            – Quando essa rosa branca se tingir completamente de vermelho significará que todo o seu sangue foi sugado para dentro dela. Se você tentar tirá-la, ela criará raízes que penetrarão direto no seu coração. E você morrerá mais rápido.
            Roberto arregalou os olhos e soltou a oponente.
            Soraya caiu com força no chão. O golpe tinha sido fatal, assim como Roberto ela tinha apenas alguns segundos de vida.
            Ela iria morrer.
            Aquele pensamento a assustou. O que aconteceria então? O que ela encontraria quando tudo acabasse?
            – Ah... – O gemido de Roberto chamou sua atenção. – Eu não acredito... – Roberto sorria, uma explosão de felicidade tomou conta das últimas centelhas do seu cosmo. A rosa já estava completamente vermelha, o que significava que ele ignorou o aviso de não tentar removê-la. – Oi... – Ele não falava com Soraya, sua visão estava completamente sem foco e ele caiu no chão, morto.
            O que aquilo significava a amazona não tinha a mínima idéia, mas de alguma forma aquilo a acalmou, fez com que ela perdesse o medo de partir.
            Ela caminhou lentamente até o corpo da sua amiga e se sentou do seu lado.
            – Talvez seja isso, não é? – Falou ela para o corpo de Rayssa. – Não é realmente o fim... É apenas uma passagem... – Lágrimas desceram dos olhos da amazona de Peixes, mas ela não sabia dizer se eram de alegria ou de tristeza. – Seja lá pra onde eu for, eu gostaria de falar com você uma última vez... E que dessa vez você pudesse me escutar.
            A ferida doía muito, mas seu corpo lentamente ficava dormente, o que fazia a dor diminuir aos poucos.
            De repente uma estranha brisa morna passou por ela, e a sua ferida cicatrizou completamente, mas não adiantaria muito, ela já havia perdido muito sangue.
            Obrigado... A voz de Roberto chegou a ela num leva sussurro junto com a brisa, e ela teve certeza que ele estava bem, onde quer que estivesse.
            Ela sorriu antes de ver uma estrela cadente rumar em direção a Peixes e sua visão apagar completamente.

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