sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Capítulo 18 - Justiça


Mariana de Sagitário.

            “A maioria das garotas da minha idade está dormindo à uma hora dessas, mas eu estou fazendo isso? Não! Estou aqui, tentando salvar o mundo...
            Mariana não conseguia tirar esse pensamento da cabeça. Não que ela estivesse arrependida de ter assumido a responsabilidade como amazona, mas às vezes ela sentia falta de ser uma garota normal, como todas as outras, se bem que nenhuma delas consegue soltar raios com as mãos... “Azar o delas.
            Enquanto corria ela também não conseguia deixar de pensar em seu irmão. Ele havia ido até o templo de Apolo com as meninas de bronze, mas será que eles estavam bem?
            Como que para responder sua pergunta ela pôde sentir o cosmo de Bia explodir em puro poder, e ao olhar para cima ela pode ver um ponto brilhante ao longe, as batalhas no templo haviam começado, esse foi o primeiro resquício de poder vindo de lá, mas ela não podia se preocupar muito com o que acontecia lá em cima, pelo menos não até todos os filhos de Apolo estivessem mortos na Terra.
            Fogo! Em meio a tantos pensamentos e lembranças Mariana não prestou muita atenção aonde ia, e quando deu por si ela estava em frente ao shopping da cidade, e este havia acabado de explodir em chamas bem diante dos seus olhos. Sem nem ao menos hesitar, ela adentrou o local.
            Já lá dentro ela pode perceber três coisas. Primeira: O calor lá dentro estava infernal. Segunda: O fogo não tinha consumido tudo, mas a maior parte das lojas estavam completamente destruídas. Terceira: Essa explosão não tinha acontecido por acaso, alguém estava ali.
            Ao se virar para tentar achar o inimigo ela foi pega de surpresa. As chamas que antes bruxuleavam por toda volta se reuniram em uma grande e única chama ameaçadora e tomaram a forma de uma enorme flecha, que vinha a toda velocidade em sua direção.
            – IMPULSO DE LUZ DE QUÍRON! – Gritou Mariana.
            Um poderoso tufão de ventos dourados foi liberado de seu corpo, os ventos eram tão fortes que apagaram as chamas da flecha.
            – Santo Deus, isso foi realmente impressionante. – Em meio à fumaça uma voz chegou até Mariana. Um cavaleiro apareceu aplaudindo devagar e olhando para ela. Sua armadura era alaranjada, como a de todos os filhos de Apolo, e tinha características estranhamente familiares, que lembravam muito penas e pontas de flechas. – Sério mesmo, nunca vi um golpe assim.
            – Então se prepare pra ver muitos iguais a esse antes de morrer... – Mariana não perdeu tempo e partiu pra cima do cavaleiro.
            Quando estava bem perto ela disparou um soco no rosto redondo e moreno do filho de Apolo. A força do golpe fez com que ele cambaleasse alguns passos para trás, um hematoma roxo tomou forma em sua bochecha.
            – Eu descobri quem você é. – Disse Mariana. – Você é o Bruno. O cara que toca bateria na banda do meu irmão...
            – Eu mesmo, em carne, osso e poder... Mas agora me diga: Onde está o seu irmão? – Disse ele, pondo um toque de agressividade nas últimas palavras.
            – Que cargas d’água fazem você pensar que eu vou te contar?
            – Você é muito irritante, garota...
            – Quem te contou isso? Meu irmão?
            O rosto de Bruno se contorceu numa careta de raiva e ele partiu para cima de Mariana. Mas, por causa do seu tamanho, ele não conseguia ser tão rápido quanto à amazona, que era pequena e ágil.
            Bruno, então partiu com força bruta em vez de velocidade, ele concentrou toda sua força no punho direito e disparou um soco contra Mariana, que, por sua vez, se abaixou e contra-atacou com uma rasteira, fazendo o inimigo ir ao chão.
            Ela tentou puxá-lo pela perna, mas ele era muito grande para o seu tamanho, ela não conseguiu movê-lo nenhum centímetro.
            – HAHAHA! – Riu-se Bruno. – Você é fraca, garota. Nunca vai conseguir me derrotar com toda essa “força”. – Ele se levantou e destacou a ultima palavra com aspas imaginárias.
            – Eu não preciso de muita força pra acabar com um fracote como você! – Gritou Mariana, levantando vôo. – Eu tenho certeza que minha velocidade é suficiente contra você!
            Mariana então se concentrou e elevou um pouco do seu cosmo, e então ela pôde sentir seu corpo cada vez mais leve e solto, e foi nesse exato momento que ele começou os ataques.
            Ela pôs os pés em um dos pilares do local, e, com muita velocidade, pulou para outro. E a confusão de Bruno era visível. Enquanto ela estava no segundo pilar ele ainda olhava para o primeiro e com essa mesma velocidade ela desceu e atacou com um chute nas costas. Antes que ele pudesse se dar conta de que ela estava atrás dele, ela já havia pulado para outro pilar completamente diferente.
            – Covarde! – Gritou Bruno. – Apareça!
            – Eu estou aqui... Na verdade eu nunca saí daqui... – Disse Mariana, parando e se segurando em um dos pilares.
            – Então essa é a sua jogada? – Perguntou ele. – Não vai mais funcionar!
            Bruno correu na direção do pilar em que Mariana estava e o socou com toda a força. Este que já estava decrépito, por causa dos incêndios, rachou completamente e começou a desmoronar, e foi aí que Mariana percebeu seu plano. Ele queria destruir todos os pilares para que ela não tivesse onde se apoiar, mas seu plano havia falhas.
            Antes que o primeiro pilar caísse com ela ainda lá, ela saltou para outro.
            – Eu estou aqui... – Cantarolou a amazona.
            Ele se voltou para onde ela estava e fez o mesmo com este, que começou a se romper com o impacto. E assim prosseguiu a luta até que Mariana se pendurou no último pilar. A diferença no ambiente era visível, estava mais do que claro que esse pilar no qual a amazona se apoiava era a única coisa que impedia a estrutura de ruir completamente, mas, ao que parecia, ela era a única que via isso.
            – Agora você não tem pra onde correr! – Gritou o filho de Apolo.
            E, como o esperado, ele golpeou o último pilar. Antes que este caísse Mariana saltou para cima e atravessou o teto, voltando para o ar fresco da madrugada. Ela planou e olhou para baixo e viu a estrutura do shopping tremer e ir abaixo.
            Mas ela sabia que não havia acabado, aquilo não seria o suficiente para derrotar um filho de Apolo daquele nível.
            – Você não pensou que destruir uma edificação comigo dentro iria me derrotar, pensou? – De alguma forma Bruno havia saído de lá antes dela, e agora ele lhe prendia em uma chave de braço. – Acho que não. Mas eu tenho certeza que você pensou que eu era um cara lento, não foi? Então deixa eu te contar uma coisa: Eu represento o arco e flecha, eu sou rápido.
            Com isso Bruno fez um movimento e ambos começaram a mergulhar em direção ao chão.
            – METEORO CORTANTE! – Gritou Bruno.
            Assim que o filho de Apolo proferiu essas palavras ambos começaram a pegar fogo e a ganhar velocidade, como se realmente fossem um meteoro, mas Mariana parecia ser a única a sofrer queimaduras.
            Não demorou muito para que o chão estivesse perto de mais e o cavaleiro soltasse a amazona com toda força. O impacto foi imenso, e uma enorme nuvem de poeira subiu com o impacto. E depois de tudo...
            Escuridão.
            Mariana não conseguia sentir suas pernas nem seus braços, mas, de alguma forma, sabia que estava viva. Ou isso, ou algo ainda a mantinha viva... Mas o que?
            Foi aí que uma lembrança antiga, vinda dos confins da sua memória lhe veio em mente:


            – Para com isso garoto, você é muito chato! – Gritou Mariana sentada no banco do transporte escolar tentando prender o cinto de segurança.
            Ela tinha por volta dos seis anos e eles tinham acabado de se mudar para Juazeiro, e esse era o terceiro dia de aula.
            Um garoto chamado Laélio tinha pegado a parte brilhante do cindo de segurança e, com ele, estava pondo o reflexo do sol em seus olhos, e isso a deixava irritada.
            Eu não vou parar, por que você é pequenininha, e fraquinha, e não pode fazer nada, não é? – Devolveu o garoto, continuando com a provocação.
            Ah, você vai parar sim! – A voz de Matheus, irmão de Mariana ressoou através da porta do carro, que, como se fosse mágica, se abriu logo depois que ele falou. – Ou você para, ou eu faço você parar...
            E quem é você, filho da diretora? – Perguntou Laélio. Mirando o reflexo do sol nos olhos de Matheus.
            Não... – Disse Matheus entrando no carro completamente seguro, como se a luz do sol não lhe incomodasse nem um pouco. – Mas eu não preciso ser filho da diretora pra fazer você engolir esse cinto.
            Porque você fica defendendo essa garota besta? O que ela fez pra você? – Disse Laélio com medo na voz.
            Ela é minha irmã!
            O que é que está acontecendo aí? – Perguntou Sr. Marcelino, motorista do transporte escolar.
            Nada... – Laélio se apreçou em dizer. – Só estamos nos conhecendo.
            É bom mesmo...


            Era isso. Isso era o que a mantinha viva. Seu irmão sempre a protegeu com tudo o que podia, e ela nunca teve a oportunidade de retribuir. Essa agora era a sua chance.
            Mariana abriu os olhos e pode perceber algumas coisas. Ela estava viva e seu corpo emitia um brilho dourado como nunca havia feito antes, ela estava dentro de uma enorme cratera, provavelmente conseqüência do golpe, e ela estava mais forte do que nunca. Sua armadura tinha uns arranhões feios, mas nada que viesse a atrapalhar. Ela se levantou devagar e o seu elmo caiu. Ela olhou-o por alguns segundos e levantou vôo.
            E que vôo! Sua velocidade nunca esteve tão alta, e a sensação de liberdade era, sem duvida nenhuma, a melhor que já experimentara, mas ela aproveitou pouco. Alguma coisa se aproximava por trás dela, e vinha rápido.
            Ela se virou depressa e estendeu a mão, que segurou firme o pescoço de Bruno. Mariana afrouxou o aperto, o suficiente para ele poder falar.
            – Como você sobreviveu? – Perguntou ele.
            – Um golpe fraco como aquele não mataria nenhum humano comum, imagina um cavaleiro de ouro...
            Mais uma vez Bruno demonstrou uma expressão enraivecida tentou socar Mariana no rosto. A garota se esquivou, mas isso fez com que soltasse Bruno. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, a amazona foi certeira em um chute no seu rosto que fez com que ele voltasse alguns metros para trás.
            Não demorou muito para que ele voltasse para cima dela numa velocidade assustadora, a única opção que ela tinha era também ir de encontro a ele, e assim foi feito. Quando ambos se encontraram, por coincidência os dois punhos se chocaram. Eles então recuaram e voltaram a se chocar, sempre com o mesmo punho, com a mesma força imprimida no golpe.
            Depois de alguns segundos Bruno mostrou uma reação mais efetiva. Seu punho brilhava intensamente e ele gritou:
             – PUNHO EXPLOSIVO!
            Seus punhos se encontraram e Mariana pode sentir a dor se espalhar pelo seu braço, que estava prestes a se partir.
            “Isso não vai acontecer!
            – TROVÃO ATÔMICO!
            Mariana pode sentir a eletricidade percorrer o seu braço, acalmando a dor, quando ela chegou à mão tomou a forma de um raio de luz e atingiu Bruno, que ficou flutuando atordoado em pleno ar. A amazona não perdeu tempo e meteu-lhe um soco no estomago com tamanha força que fez com que ele caísse em alta velocidade em direção ao chão, caindo a poucos metros de distância da cratera que ela mesma formara.
            Ela desceu até lá.
            – Agora me diga: O que você quer com o meu irmão?
            – Ele tem que morrer. – Disse Bruno, se apoiando nos cotovelos.
            – Mas ele já está indo para o templo de Apolo, o que mais você poderia querer?
            – Você não entende, não é? Ele não terá uma morte qualquer... Ele tem que morrer na frente de Virgem, pois ela tem que sofrer! A dor que ela causou ao meu mestre, Apolo, pode ser sentida também pelos seus filhos! Ele tem que morrer, para saciar a sede de vingança dele!
            Mariana não conseguia acreditar no que ouvia. Certo que a raiva que Erik sentia com certeza era enorme, mas pra que tudo isso? Acabar com uma vida, e logo a do seu irmão, que sempre esteve do lado certo, e nunca fez nada de ruim...
            – Você só pode estar brincando comigo...
            – Eu não estou brincando. – Disse Bruno se levantando rapidamente e segurando Mariana pelo pescoço. – Agora me diga: Onde está Virgem?
            – Pensei que você estivesse procurando por Matheus...
            – Você acabou de me dizer onde ele está, tolinha, e ele está indo direto para a boca do lobo... Vou perguntar pela última vez: Onde está Virgem!
            – Morra! – Gritou Mariana com raiva.
            Infelizmente, para ela, a sorte não estava do seu lado. O cosmo de Lays pôde ser sentido ao longe, pois uma enorme luz roxa de energia cósmica surgiu. Ela estava entrando em combate e Bruno acabara de perceber isso.
            – FLECHA BIDIMENCIONAL! – Gritou Bruno.
            Seu poder agora estava bem diferente, e não tinha nada a ver com o calor que ele usara durante toda a batalha, aquilo era uma força muito bruta. Dessa vez o poder estava mais refinado.
            O punho dele havia se transformado numa flecha e essa flecha estava sendo direcionada para o peito de Mariana, ela tinha que fazer alguma coisa.
            – DESTRUIÇÃO INFINITA!
            Mariana reuniu todo o poder do Trovão Atômico no seu corpo e começou a concentrá-lo, mas ela não tinha tempo. Ao mesmo tempo que a flecha a atingiu, o poder foi liberado, o que fez com que a armadura de Bruno ficasse em mil pedaços e ele fosse atirado para longe dela. A amazona caiu no chão.
            Uma falta de ar tomou conta do seu corpo, mas não doía. Era uma sensação estranha, como se seu ferimento estivesse puxando o resto de seu corpo para dentro. Ela tentava resistir, mas era mais forte que ela.
            – É impossível. – Bruno caminhava cambaleando e mancando devagar em sua direção, sua armadura não o protegia mais e a única coisa que o vestia era um par de calças. – Em um segundo você será transportada para o nada. E não há absolutamente nada que você possa fazer com relação a isso.
            De alguma forma as palavras dele intensificaram a força do poder e ela parou de resistir. E mais uma vez:
            Escuridão.
            Mas dessa vez era diferente. Ela podia sentir todos os seus membros, e até podia tocar o chão, um chão invisível, mas ela sabia que estava pisando em algo suficientemente forte para agüentar seu peso.
            Ela abriu os olhos, mas nada mudou, a escuridão reinava no local. A falta de ar permanecia. Mariana percebeu que a sensação não lhe era estranha, e ela sabia exatamente de onde a conhecia.
            Há alguns meses ela passou um tempo treinando com Miguel, que acabara de morrer em combate. Nesse meio tempo ele a havia ensinado como sair de outras dimensões, para isso, ele usou um de seus ataques para mandá-la a outra dimensão. O treinamento foi completamente bem sucedido.
            Porém algum tipo de poder a estava prendendo naquela dimensão, ela não conseguia sair de lá.
            – É impossível tentar sair daí... – A voz de Bruno ressoou por todo o local, reverberando em seus ouvidos, o que lhe causava dor. – Meu poder está prendendo você aí. Em questão de segundos você não terá oxigênio nenhum. E morrerá. Você não tem saída. Aproveite sua estadia no Nada.
            A voz parou de reverberar, mas o poder que a segurava no Nada ainda era intenso. O que ela faria agora? Tudo no que ela acreditava, tudo pelo que ela lutava, tudo seria destruído em questão de segundos. Mas talvez esse fosse seu destino... Talvez esse fosse o destino dos bons: Morrer tragicamente em batalha.
            As imagens dos rostos de John, Rayssa, Soraya e Miguel apareceram em sua mente. Todos eram boas pessoas, e cavaleiros leais, mas agora eles estavam mortos... Onde estava à justiça nisso? Aonde?!
            Justiça...
            A palavra tomou o lugar dos rostos dos cavaleiros em sua mente, e, lentamente foi tomando a forma de uma flecha, e foi aí que uma luz caiu sobre ela. Nem tudo estava perdido... Mariana usou as últimas gotas de oxigênio que lhe restavam, tomou ar, e gritou:
            – Bruno! Eu sei que você pode me ouvir! Então ouça com atenção! – Ela tomou ar mais uma vez e voltou a gritar: – Não é porque você me enviou para outra dimensão que eu vou parar de lutar, que eu vou simplesmente desistir! Porque a justiça está do meu lado, e é ela quem vai destruir você!
            – HAHAHA! Você tem espírito de guerreira, mas sua mente ainda é a de uma criança... Não existe justiça nesse mundo, minha jovem, há apenas o poder, e aqueles que são espertos o bastante para lidar com ele.
            Mariana não quis mais ouvir, lentamente puxou o arco da armadura de Sagitário que estava preso às suas costas, e a flecha que estava acoplada ao seu ombro.
            – Não adianta! Uma flecha nunca irá me atingir! Ou você esqueceu que está no Nada?
            – Eu não esqueci. Mas essa não é uma flecha qualquer... A flecha de Sagitário é uma arma única dentre os cavaleiros. Ela é a única que pode atravessar dimensões e atingir o inimigo aonde quer que ele esteja. E ele nunca se volta contra o bem. FLECHA DA JUSTIÇA!
            Mariana disparou a flecha, que percorreu vários metros antes de desaparecer. Depois de alguns segundos a pressão que a mantinha presa no Nada cedeu. E ele pôde se mover com mais liberdade. A primeira coisa que ela fez foi ligar seu cosmo com os resquícios de poder da flecha que acabara de ser disparada e se tele transportar de volta para a sua própria dimensão.
            Ao chegar lá, ela ficou um pouco tonta e sua vista demorou a se acostumar com a relativa claridade do ambiente. Assim que ela pôde enxergar normalmente viu Bruno caído no chão e a Flecha dourada de Sagitário encravada em seu peito.
            Ela caminhou até ele e puxou a flecha. Ao fazer isso, o seu inimigo brilhou intensamente até explodir em poeira cósmica. Esse era o fim.
            Para contrariar esse pensamento ela pôde sentir mais uma vez um cosmo poderoso vindo do templo de Apolo, mas dessa vez era o do seu irmão. Logo em seguida o cosmo de Lays explodiu como ela jamais havia sentido, talvez porque ela também quisesse acabar com a luta para poder se dirigir para o templo. Se ela estivesse certa, então teria que se apressar.
            Pois Mariana iria com Lays ao templo de Apolo para ajudar o seu irmão.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Capítulo 17 - Mente

                               Claudino de Capricórnio

            – AHH!
O grito de terror chegou aos ouvidos de Claudino. Alguém, uma criança ao que parecia, estava gritando de dentro de uma casa em chamas.
Ele correu para dentro do local. Móveis e aparelhos domésticos flamejavam e uma fumaça fedorenta dominava o ambiente.
– Onde você está?!
– Aqui! – Gritou a voz. – Dentro da cozinha!
Em instantes o cavaleiro achou o caminha até lá, e, ao chegar, viu uma garotinha que aparentava ter cinco ou seis anos de idade.
– Socorro... – Disse a garota com a voz fraca.
            Havia algumas pedras grandes em cima do seu bracinho o que impedia que ela saísse de lá, a garota chorava copiosamente.
            Claudino correu até lá, tirou os escombros de cima do seu braço e pôs a garota no colo. Correu para o lado de fora da casa, onde a garota respirou com mais facilidade. Uma vez lá fora o cavaleiro pôde ouvir uma mulher correndo em sua direção.
            – Minha filha! – Gritou a mulher pondo a criança nos braços. – Você está bem, meu amor?
            – Quem é você? – Perguntou a garotinha, que já havia parado de chorar e agora olhava para a armadura com curiosidade.
            – É difícil explicar... – Disse Claudino.
            – Muito abrigada, eu não sei como agradecer... – Disse a mãe.
            – Não precisa, agora eu apenas quero que vocês duas durmam...
            Dizendo isso Claudino pôs as mãos nas cabeças da mãe e da filha, com uma pequena onda de poder ele apagou qualquer lembrança que as duas poderiam ter sobre o acontecido, quando parou as duas caíram no chão. O cavaleiro as tirou do meio da rua e deixou-as dormindo.
            “Isso é muito triste... Todas essas pessoas ficando desabrigadas, só por causa do egoísmo de uma pessoa... Isso é inaceitável!
            O pensamento mal surgiu na cabeça de Claudino e ele pôde sentir a explosão mais forte até agora, mais forte que a de John, a de Rayssa ou a de Soraya, era como se duas galáxias se chocassem uma com a outra, e ele conhecia bem esse poder. Era Miguel.
            Esse era o inconfundível poder destrutivo da Explosão Galáctica, golpe usado pelo cavaleiro de Gêmeos, mas esse estava diferente, estava mais concentrado e mais poderoso.
            Ao olhar para cima ele pôde ver um enorme brilho, como o de uma estrela das mais brilhantes, só que bem perto, e de alguma forma ele sabia, sabia que aquele ponto brilhando era Miguel, e ele corria perigo.
            Como que para confirmar seus pensamentos o cosmo de Miguel, que antes explodia em pura energia cósmica agora se apagava, e ele pôde ver uma estrela cadente se dirigindo a Gêmeos.
            – Ah, merda! – Murmurou Claudino antes de sair correndo.
            O ponto de luz que apareceu no céu, que agora ele tinha certeza de que era Miguel, havia caído não muito longe dali.
Rastros de destruição e incêndios predominavam na trilha que o cavaleiro percorria. Ele não pôde sentir nenhuma presença ao longo do caminho o que significava que não havia ninguém nas casas, ou já haviam sido evacuadas.
Ele pulou no telhado de uma delas e deu uma olhada ao seu redor, o cheiro de queimado incensava o ambiente e havia fumaça para todo lado que olhasse, mas isso não o impediu de ver Caio, para o assombro do cavaleiro seu velho amigo usava uma armadura de tom alaranjado idêntico ao dos filhos de Apolo. Ele caminhava discretamente em direção a alguém que o cavaleiro não pôde identificar, mas as palavras que saíram da boca dele fizeram com que ele se mexesse.
– Isso não é justo. – A voz de Caio chegou até o cavaleiro, calma e venenosa. – Ele que se matou, não eu quem o matei... Eu preciso matar alguém...
            Claudino se aproximou devagar e lentamente, e se assustou ao ver com quem Caio falava. A última pessoa que o cavaleiro de Capricórnio imaginaria encontrar num lugar como esse: Sefora. Ela estava debruçada sobre o corpo imóvel e sem vida de Miguel ao mesmo tempo em que se encolhia de medo do brilho ameaçador que emanava do punho de Caio.
            – E esse alguém, é você! – Disse Caio.
            Seu punho se levantou lentamente e ele desferiu um golpe, Claudino foi rápido e saltou para ficar entre os dois.
– Sinto muito, mas você não vai fazer isso bebê! – Gritou ele segurando o punho de Caio com apenas uma das mãos. – Não se preocupe Sefora. Eu não vou deixar ele te machucar!
A surpresa se apoderou da expressão de Caio, a pressão do seu golpe diminuiu e ele se afastou alguns passos.
– E, mais uma vez, o destino brinca com a minha cara, e faz com que eu tenha que matar um amigo meu. – Disse Caio, falsamente inconformado.
– E porque você tem tanta certeza de que vai mesmo conseguir me matar? – Rebateu Claudino.
– O corpo de Miguel está de prova... Ele está completamente acabado enquanto eu praticamente não sofri nenhum arranhão.
– Isso não quer dizer nada, meu filho... Só que no mínimo você é meio afrescalhado e ficou com medo de alguns cortes.
– Ok! – A cara de Caio se contorceu numa careta de raiva. – Então eu te faço o mesmo desafio que fiz a Miguel! Tente me golpear, pelo menos uma vez.
– Será um prazer...
O cavaleiro correu até Caio que entrou em posição de combate. Desferiu, ou tentou desferir, um soco em seu estomago, mas ele saltou por cima do cavaleiro e, sem nem ao menos chegar ao chão, desferiu um chute na lateral do corpo de Claudino, o impacto fez com que ele fosse atirado contra um das casas em chamas.
– Vamos lá! Eu ainda não sinto dor. – Provocou Caio.
– Tenho certeza que uma dedada resolve esse seu problema. – Claudino pode ver o sorriso de Caio com a piada fora de hora enquanto se levantava.
– Você não consegue nem me socar de forma decente, imagine uma dedada...
– Então você realmente quer uma dedada? Vou ver o que eu posso fazer por você...
Ele correu mais uma vez em direção ao inimigo, mas já estava consciente de que ele era muito bom em esquivas, e ele também seria.
Claudino saltou numa voadora que seria certeira na cara do adversário se não fosse pela mão de Caio no caminho. O filho de Apolo segurou firme a perna do cavaleiro, que aproveitou a chance e jogou a outra perna contra o estomago dele. Mas antes mesmo do movimento ter sido completado, Caio soltou a perna que segurava e se afastou, fazendo com que Claudino perdesse o equilíbrio e caísse de cara no chão.
Ah! Droga! Será que é impossível acertar esse baitola?!
– HAHAHA! É impossível me tocar... Você nunca vai conseguir.
            “Como assim, agora ele lê mentes?” O comentário havia deixado Claudino com a orelha em pé. Se o que Caio fazia não era nada mais do que ler mentes, não seria tão difícil derrotá-lo, mas sem essa informação seria realmente impossível, Miguel talvez não tivesse descoberto isso, mas era só um palpite, aquilo poderia muito bem ter sido uma simples conhecidência, mesmo assim a idéia era formidável.
            – Eu represento as profecias – Continuou Caio – eu prevejo todos os seus movimentos, assim não tem como você me tocar.
            – Impossível? – Perguntou Claudino. – Então porque eu vejo alguns resquícios da Explosão Galáctica no seu corpo? Se fosse realmente impossível você não teria sido atingido por Miguel e machucado seu lindo corpinho afeminado.
            Caio fez uma careta e correu até Claudino em alta velocidade. “É agora que eu tiro a prova dos nove.
            Assim, Claudino esvaziou completamente sua mente, deixando-a escura para técnicas alheias. Para a sua surpresa e alegria deu certo. A expressão de Caio mudou de raiva para puro assombro e surpresa, mas isso não fez com que ele retardasse o ataque. Um soco veio veloz na direção do rosto de Claudino, que por sua vez se abaixou, se esquivando do soco, e pulou com o punho erguido golpeando o inimigo com força no queixo. O impacto fez com que Caio fosse atirado para cima.
– Como?! Como você conseguiu fazer isso?! – Caio gritava de frustração.
            – Parece que sua adivinhação do futuro está mais para Tarô... Será que você também consegue trazer a pessoa amada em até três dias? – Disse Claudino com um sorriso triunfante no rosto.
            – Pare de besteira! Responda logo a porcaria da pergunta!
            – É muito simples... – Disse Claudino. – Você leu minha mente enquanto eu me perguntava se seria realmente impossível te derrotar, infelizmente, pra você, o seu ego lhe denunciou e você fez questão de concordar. E depois os vestígios da Explosão Galáctica no seu corpo deixavam claro que sua “previsão do futuro”... – Claudino fez questão de fazer aspas no ar com os dedos ao dizer essa parte - ...tinha falhas.
            – E como você fez para deixar sua mente tão escura sem oferecer resistência nenhuma a ela? – Perguntou o filho de Apolo.
            – No meu treinamento, meu mestre me ensinou a escurecer a mente. Essa foi a parte mais chata e eu vivia pensando comigo mesmo que era completamente inútil, mas vi que foi realmente bom ter aprendido.
            O rosto de Caio ficou vermelho vivo com o esforço de tentar penetrar mais fundo na mente de Claudino, mas era impossível, ele podia tentar o quando quisesse, nunca iria conseguir ver nada.
            – Pare de se esforçar tanto ou vai terminar peidando. Levante-se agora e lute feito macho, sem essa baitolagem de leitura de mente!
            Caio se aproximou em alta velocidade, mas o que aconteceu quando ambos se encontraram foi uma grande reviravolta na batalha. Pelo que Claudino pode perceber Caio era muito dependente da leitura de mente, o que fez com que ele ficasse relaxado com relação aos seus treinamentos em táticas de luta.
            O filho de Apolo tentou acertá-lo com um soco no rosto, mas, com muita facilidade Claudino se esquivou para a esquerda e acertou um golpe com as mãos juntas nas costas do inimigo, que caiu de barriga no chão.
            Revoltado, Caio segurou nas pernas de Claudino e as puxou, fazendo com que o cavaleiro também caísse.
            – Agora morra, Capricórnio!
            O punho de Caio ardeu em chamas e vinha rápido para cima de Claudino, porém no último segundo ele rolou e se esquivou do golpe e o lugar onde sua cabeça estava a alguns segundos se transformou num buraco esfumaçado como se um pequeno meteorito tivesse caído ali, o cavaleiro não quis nem pensar no estrago que teria acontecido se ele não tivesse conseguido desviar.
            – VISÃO FUTURA! – Gritou Caio.
            Seus olhos e sua boca aberta emanaram um brilho estranhamente alaranjado como se fosse uma lanterna. Uma leve brisa fez com que o clima no ambiente ficasse mais pesado, mas nada mais aconteceu.
            – Ái dentro! – Gritou Claudino. – Vem aqui pra eu lhe mostra o que é um golpe decente!
            Caio estava descontrolado. Ele correu até o cavaleiro com uma velocidade completamente inumana, mas Claudino já sabia o que fazer.
            – SALTO DE PEDRA!
            Quando Caio estava bem próximo Claudino pulou sobre seu inimigo de modo que seus pés se encaixassem na parte de baixo de seus braços, quando isso aconteceu Claudino usou toda a força do corpo de Caio contra ele mesmo, atirando-o para o alto sem dar chances para ele planar.
            Depois de alguns segundos Caio caiu de cabeça no chão deixando várias gostas de sangue espalhadas.
             – Haha... – Caio começou a rir. – Todo esse esforço... Mas você não vai conseguir proteger a garotinha ali, Capricórnio...
            De repente a atenção e Claudino se voltou para Sefora, que assistia a tudo completamente assustada ao lado do corpo de Miguel, mas antes que ele pudesse fazer qualquer coisa Caio já corria em direção a ela com o punho flamejando.
            – Não vai não! – Gritou Claudino.
            Mas antes que ele pudesse dar sequer um passo o clima no ambiente mudou novamente. Uma onda de golpes flamejantes e potentes começaram a atingi-lo por todos os lados, e a dor que ele sentiu foi tão grande que fez com que ele caísse no chão se contorcendo.
            Agora ele pôde entender o efeito da Visão Futura criada por Caio.
            A dor ainda era enorme, mas ele não podia ceder, ao menor Caio já estava frente a frente com Sefora. Com uma das mãos ele a erguia pela gola da camisa e a outra estava erguida, se preparando para agredi-la.
            Ignorando a dor dos golpes que era intensa, Claudino se levantou e correu, correu o máximo que suas pernas agüentaram, mas não foi o suficiente Caio já estava lançando o punho contra o rosto da amiga.
            – EXCALIBUR! – Gritou Claudino, e o golpe foi certeiro.
            O cavaleiro havia mirado na mão de Caio que segurava Sefora pela camisa, e o poder de corte da lendária espada acertou em cheio a mão do inimigo fazendo com que ele a soltasse. Para ganhar tempo, o cavaleiro golpeou seu inimigo com uma voadora.
            – Você está bem? – Perguntou Claudino, se agachando perto da amiga, a dor já estava deixando o seu corpo.
            – Sim, obrigada... – Respondeu ela. – O que vocês são?
            – Não há tempo pra explicar, eu quero que você corra pra longe daqui, agora!
            – Eu não saio daqui sem Miguel! – Disse ela com lágrimas nos olhos.
            – Tudo bem eu...
            Um soco altamente poderoso interrompeu a fala de Claudino. Caio havia se levantado e lhe acertado o golpe sem que ele percebesse.
            – Não me atrapalhe cavaleirinho de merda! – Gritou Caio.
            Claudino não disse nada. Não fez piada, nem nenhum tipo de comentário, apenas olhou pro rosto do que costumava ser um grande amigo seu. Ele estava completamente descontrolado e tomado pelo desejo de matar, já não era mais a mesma pessoa.
            – Você está completamente louco...
            Caio correu para cima dele, com um estilo de luta completamente diferente. Ele conseguia se defender e atacar ao mesmo tempo, apesar de não poder ler a mente de Claudino ele podia prever cara um dos seus golpes.
            Por um descuido de Claudino, Caio acertou um golpe no seu estomago. O impacto fez com que ele fosse atirado para longe.
            – Vou matar você antes de matar a garota. – Disse Caio. – Diga adeus, cavaleiro de ouro de Capricórnio! – O punho de Caio cortou o ar flamejante e fatal na direção de Claudino, e dessa vez seria quase impossível se defender. Até que uma luz surgiu na cabeça do cavaleiro.
            – EXCALIBUR! – Gritou o cavaleiro enquanto estava de joelhos.
            O braço direito de Claudino adquiriu o poder da espada lendária e, como se realmente fosse uma lâmina, cortou a parte da frente da armadura do inimigo. O golpe não foi o suficiente para matar, mas o impacto fez com que ele saísse do chão, o que era a deixa perfeita para o golpe final.
            Claudino saltou e acompanhou Caio na sua decolagem, quando a altura dos dois era a mesma ele gritou:
            – DANÇA DAS ESPADAS!
            O golpe foi disparado com os dois braços em forma de um “X”. Para olhos comuns foi apenas um único movimento, mas os feixes de luz que surgiram dos braços do cavaleiro diziam ao contrário. Foram vários golpes fatais.
            Ambos caíram no chão ao mesmo tempo, mas Caio caiu de cabeça e dessa vez um verdadeiro rio de sangue se fez no chão. Claudino não precisou se aproximar para saber que seu inimigo estava morto, em segundos ele havia se transformado em poeira cósmica, e o único vestígio de sua presença ali era o seu sangue jogado no chão.
            Claudino correu até Sefora que olhava para o local onde antes estivera Caio com as mãos sobre a boca e os olhos arregalados.
            – O que aconteceu aqui? – Perguntou ela quando Claudino se aproximou.
            – Antes de mais nada... Você está realmente bem? Não está machucada?
            – Minha cabeça ainda dói um pouco, mas... – Sua fala foi interrompida.
            A armadura de Miguel começou a brilhar e a emitir um som agudo como o de sinos. A armadura se separou de seu corpo e tomou sua forma original, o de uma grotesca figura de quatro braços, ela emanou um brilho forte e sumiu, levando com ela o som e deixando os ouvidos de Claudino apitando.
            – A armadura retornou para seu legitimo lar, aguardando o cavaleiro da próxima geração... – Disse Claudino, quase sem pensar com o olhar vago para o céu.
            – Você quer fazer o favor de me explicar que merda é essa que está acontecendo?! – Sefora gritava de frustração. – Meu melhor amigo morreu e tudo por culpa de Caio! Porque ele fez isso?! Me explica!
            Claudino suspirou ao olhar para a cara de Sefora e ver tanta tristeza.
            – Não... Hoje não... – Disse ele pondo a mão sobre a cabeça dela. – Agora eu apenas quero que você durma, eu prometo que amanhã tudo estará mais claro.
            Dizendo isso sua mão formigou, o que indicava que todas as lembranças do acontecimento foram retiradas da cabeça de Sefora antes que ela caísse no chão, desacordada.
            – Você foi valente, Miguel. – Disse Claudino se virando para o companheiro. – Onde quer que você esteja, quero que saiba que seu sacrifício não foi em vão. Ela está segura, e vai permanecer assim...
            E uma lágrima caiu dos olhos do cavaleiro de Capricórnio. A lágrima que estava presa em seus olhos desde que aquela estrela caiu em direção a Gêmeos.


Nota: * Queria pedir 394328023498329 milhões de desculpas pela demora, o motivo foi a quantidade de coisas que eu tinha pra fazer no colégio, estava ficando sem tempo pra escrever... Mas agora eu prometo tentar estabilizar a postagem de capítulos. Espero que estejam gostando. =D (Twitter: http://twitter.com/#!/Tee_Henrique