Não precisei abrir os olhos para saber que estava na Grécia. O clima mudou completamente de altamente quente, para um quente suave como numa manhã de sol depois de uma noite de chuva. Abri os olhos e percebi que, por causa do fuso-horário, faltava em torno de três a quatro horas para o pôr do sol. Olhei em volta para saber onde tinha ido parar e descobri que bem na minha frente estava a escadaria que levava direto para a casa de Áries. Fiquei aliviado em saber que não precisaria andar mais do que já iria. Essa era umas das desvantagens do Santuário era terminantemente proibido tele transportar de lá, ou para lá, mesmo para os cavaleiros, por causa do risco de traição ou invasão. Se alguém quisesse chegar até a sala do Mestre teria que passar pelas doze casas e, conseqüentemente, pelos doze cavaleiros de ouro.
Eu já havia começado a subir as escadas e cheguei a primeira casa: Áries. Era estranho estar entrando ali. Saber que, antes da merda toda que aconteceu na última guerra, aquele local era, por direito, de Eduardo. Mas eu não me senti tão mal pisando naquele lugar, até porque nenhum dos cavaleiros desta geração havia chegado a proteger sua designada casa. O motivo disso era o fato de todos os inimigos estarem atacando no Brasil, mais especificamente no Ceará, o que era curioso, pois todos os cavaleiros desta geração tinham alguma ligação com aquele local, ligação que, até agora, era desconhecida. Coincidência? Acho difícil.
Saí da casa de Áries e, que surpresa! Mais escadas. Dessa vez as que levavam a casa de Touro. Isso ia ser mais complicado do que parecia.
Lays de Virgem
Lays fechou a porta da sala e ficou olhando pela janelinha para ver Matheus virar de costas, brilhar e desaparecer. Depois de muito tempo aquela história de Cavaleiros do Zodíaco ainda era bem estranha pra ela. Ela conseguia se lembrar como se fosse ontem a vez em que Matheus chegou pra ela e disse: “Pode parecer uma pergunta estranha e idiota, mas você acredita que desenhos animados possam ser reais?”. Ela ficou toda embasbacada, afinal, que tipo de pessoa acreditaria em histórias como aquelas? Mas, quando ela o viu congelar a piscina do instituto com um aceno de mão ela quase desmaiou. Mas, passado o choque, ele explicou sobre a lenda dos cavaleiros e que o desenho retrata uma guerra ocorrida nos anos oitenta, explicou também que essa história de “reencarnação de Athena” era pura ficção. A garota do desenho na verdade era a portadora da armadura de Athena daquela época, o que significa que ela tinha uma enorme cosmo-energia que a permitia trajar uma Kamui, armadura que só podia ser usada por pessoas que tivessem um extraordinário poder, até agora seis cavaleiros (sem levar em conta os portadores) conseguiram esse poder, eram eles, os cinco cavaleiros de bronze que protagonizavam o desenho, e o próprio Matheus que conseguiu esse milagre na última batalha contra Guilherme. A diferença entre um portador e um cavaleiro é que o portador já nasce com um cosmo super poderoso, o cavaleiro tem que desenvolver esse cosmo, o que era bem difícil.
Lays andou até o ponto de ônibus e entrou no linha oito, que a levaria para casa. Ao se sentar seu telefone tocou.
– Lays? Sou eu, Erik. Você queria falar comigo?
– Queria sim. Mas era melhor se fosse pessoalmente. Você pode ir lá pra casa?
– Na verdade eu já estou aqui. Onde você foi a essa hora? Você não costuma levantar tão cedo.
– Pra canto nenhum. Olha, me espera aí que eu já estou chegando.
– Ok.
Ele desligou o celular.
Lays ainda não acreditava no que estava prestes a fazer. Magoar as pessoas era uma coisa que ela odiava fazer mais do que tudo no mundo. Só que lá estava ela, magoando um amigo. De novo. Mas era por uma boa causa. Ela já estava cansada de permanecer triste para fazer os outros felizes. Isso tinha que acabar.
Ela até podia prever a reação de Erik. Primeiro, surpresa, depois, raiva. Aí ele iria virar a cara, e nunca mais olharia na cara dela, assim como fez da última vez.
Ela desceu do ônibus e caminhou algumas quadras até virar na esquina da rua da sua casa. E lá estava ele, sentado na sua “Pop” lendo o que parecia ser um jornal. “Erik lendo jornal? Se a situação não fosse tão tensa eu poderia até rir disso.” Pensou ela.
– Oi. – Disse ela sem conseguir conter o nervosismo na voz.
– Oi. O que você queria falar comigo? É importante? – Disse ele, dobrando o jornal. Ele falou com uma estranha esperança na voz que deixou Lays nauseada.
– Na verdade é sim. E muito. – Uma vontade de chorar se apoderou dela. Mas não. Ela tinha que ser forte.
– Eu posso entrar?
– Não. Não pode. Olha, é o seguinte, lembra que eu disse... “Disse” não, perdão, eu jurei pra você que Matheus era só um amigo como outro qualquer? – As feições dele se contorceram numa careta ao ouvir o nome de Matheus. – Então, eu menti. Olha, eu amo muito ele, eu não posso mais negar isso, nem pra mim, nem pra você e nem pra mais ninguém. Eu me senti na obrigação de te contar isso eu mesma.
Ele abaixou a cabeça, e por um instante Lays pensou que Erik fosse chorar. Mas não, o olhar dele mudou, de um jeito que até parecia outra pessoa.
– Para com isso, Lays. Você não pode amar esse otário! Vocês se conhecem a quanto tempo? Um ano? – Ele falou com a voz controlada, porém, impregnada de veneno.
– Isso não vem ao caso. A questão é que eu sou feliz do lado dele! Ele é a única pessoa, tirando minha irmã, que faz com que eu me sinta realmente bem.
– Você poderia ser feliz do meu lado!
– Não, Erik, não poderia! Percebi isso no exato momento em que você parou de falar comigo! Matheus nunca faria isso!
– Como você pode ter tanta certeza disso?
– Porque eu confio nele! – Eles estavam aos berros. Lays nunca pensou que a situação fosse chegar à esse ponto. Erik nunca foi de fazer esse tipo de cena.
– Isso quer dizer que você não confia em mim?! – Disse ele atirando o jornal dobrado no chão.
– Não. Não mais.
Sem falar mais nada Erik deu partida na moto e saiu de lá com ódio no rosto.
Estava feito. Nada mais estava no caminho deles dois. Mas porque Lays estava chorando?
Ela entrou em casa correndo e foi se deitar. Mas antes que ela entrasse em casa e começasse a chorar, algo chamou sua atenção. O jornal que Erik atirou no chão não era o “Diário do Nordeste” nem o “O Povo”, nem qualquer outro jornal local. Era um jornal da Grécia, estava escrito com letras gregas, e não parecia nada atual. O que aquilo queria dizer não importava muito agora. Ao entrar em casa ela chorou. Chorou até dormir. Mas não foi um sono tranqüilo, foi carregado de sonhos em que sua irmã desaparecia, e tudo pegava fogo. Fogo. Tudo que mais aparecia em seus sonhos era o fogo. Seria algum tipo de sinal?
Matheus de Aquário.
Puta que pariu! No desenho o caminho da casa de Áries até o salão do Mestre parecia mais curto. Apesar da minha cabeça estar girando eu não me sentia tão cansado, talvez pelo fato de ser um cavaleiro, mas, com certeza, qualquer pessoa normal não teria conseguido chegar nem à casa de Câncer sem parar pra descansar. Eu já me aproximava da minha própria casa, Aquário. Eu estivera ali uma vez, no começo de tudo. Depois de tanta coisa ter acontecido, parecia que tudo começou há séculos atrás. Mas na verdade não tinha nem um ano.
Era o primeiro dia de aula no Instituto e eu estava caminhando em direção à recepção do colégio, quando o som de um garoto chorando me chamou a atenção. Ele estava escondido atrás de uma árvore. Fui lá ver o que estava acontecendo, e tudo aconteceu muito rápido. O garoto parou de chorar assim que eu toquei seu ombro, ele virou o rosto e sorriu maldosamente. Eu percebi que ele trajava uma armadura estranha, mas não deu tempo de ver direito como era pois ele havia se jogado sobre mim e tentava me arranhar com suas garras enormes. Quando eu me preparava pra gritar por ajuda, a temperatura no ambiente caiu drasticamente e o garoto arregalou os olhos. Ele ia falar alguma coisa mas sua fala foi cortada por um raio gelado que veio de algum lugar à minha direita. Ele foi atirado contra a parede e desmaiou. Eu olhei para o lado pra saber de onde tinha saído aquele raio e vi um homem parado, de pé, com as pernas abertas e os braços erguidos e entrelaçados, entre suas mãos havia um tipo de rosário com várias contas.
Ele andou em direção a mim e eu já estava me preparando novamente para gritar quando ele falou:
– Controle-se garoto, eu não vou te fazer mal! – Ele era velho, aparentava ter uns 60 anos e tinha longos cabelos brancos. Se não fosse pelas feições duras e a voz grave eu teria pensado que era uma mulher. – Eu me chamo Jacó. Sou o atual Mestre do Santuário, antigo cavaleiro de aquário.
– O que era aquela coisa que me atacou?
– Era um espectro do exercito do portador da armadura de Hades.
Quando ele disse aquilo eu olhei para o local onde o garoto havia caído, bem a tempo de ver ele se contorcendo e virando uma poeira brilhante. Olhando de volta para o velho, percebi que uma das contas do rosário havia ficado completamente negra.
– Ta falando sério? Você ta me dizendo que a lenda dos cavaleiros é real?
– Sim! E o oráculo previu que você seria o primeiro cavaleiro de ouro dessa geração.
– Eu pensei que as guerras só acorressem a cada 200 anos.
– Você tem que entender que há muitas diferenças entre o desenho e a vida real, garoto. Mas eu vou lhe explicar tudo com calma. Acompanhe-me até o Santuário. – Disse ele estendendo a mão. – Não se preocupe com a aula, vamos voltar antes que comece, eu só quero saber qual é sua constelação guardiã e te explicar um pouco da história.
Sem hesitar eu toquei na mão do velho, e desmaiei.
Quando acordei eu notei que estava deitado no chão de um grande salão, a minha frente o velho estava sentado num trono dourado e usando um elmo também dourado. Entre nós dois havia as doze armaduras de ouro. Eu me levantei e olhei maravilhado para elas. Eu não conseguia acreditar em muita coisa. Aliás, eu não estava acreditando em nada. Não acreditava que os cavaleiros realmente existiam, nem que havia uma profecia sobre mim e nem que eu estava destinado a ser o primeiro cavaleiro de ouro desta geração. Eu não poderia estar mais feliz.
– Como vou saber qual delas é a minha? – Perguntei.
– Apenas se aproxime. Depois você vai saber o que fazer.
Fiz exatamente o que ele disse. Me aproximei lentamente, a mais próxima de mim era a aradura de Áries, porém um som estranho chamou minha atenção na outra ponta da fileira de armaduras, aparentemente só eu conseguia ouvir aquele som, pois o mestre olhava fixamente para mim, estava tão parado que, quem visse de longe, pensaria que ele estava dormindo. Caminhei até a outra ponta da fileira e percebi que o som saia da armadura de Aquário. Ao que parece a urna da armadura percebeu minha aproximação e, assim que fiquei de frente para ela, ela se abriu revelando uma armadura no formato de uma pessoa segurando um vaso. Ela tinha um brilho impressionante, parecia que estava sendo banhada pela luz sol apesar de estarmos num local completamente fechado e sem janelas. Eu me aproximei e a toquei. A onda de poder que eu senti foi inexplicável. Fui tirado do chão junto com a armadura e pairando no ar, a armadura se desmontou e foi na minha direção se encaixando perfeitamente em cada parte do meu corpo, como se tivesse sido feita especialmente pra mim. De volta ao chão e trajado com a armadura de Aquário, eu ouvi o velho exclamar:
– HAHAHA! Inacreditável, pelo jeito você deu sorte, garoto. Eu vou ser o seu mestre. Vou te ensinar tudo que você precisa saber sobre o cosmo, o poder e, o melhor de tudo, controle sobre o gelo. – Eu não consegui falar muita coisa, então só acenei com a cabeça. – Mas, antes de qualquer coisa eu vou te ensinar a se controlar durante um teletranporte, você desmaiou durante a nossa viagem, eu tive que te carregar desde a casa de Áries até aqui.
Ele começou a se queixar de dor nas costas e coisas do tipo, eu não consegui me segurar e comecei a rir.
– Me desculpe. – Falei em meio às risadas.
– Não se preocupe com isso. Vamos, vou te mostrar as doze casas do zodíaco e depois te levar de volta pro colégio, e é bom você não desmaiar! Eu não vou te carregar até sua sala, não sou sua babá, sou seu Mestre. Além do mais não pegaria bem pra você chegar à sala de aula, logo no primeiro dia, nos braços de um velho.
Eu ri mais ainda, o velho... Quer dizer, Mestre, era engraçado, nós iríamos nos dar bem.
Ele me deu a urna e eu guardei a armadura lá dentro. Descemos os degraus das doze casas e ele foi me explicando às diferenças entre desenho e realidade, e eu fiquei surpreso em descobrir que ele, na realidade, foi aprendiz de Hyoga (Essa sim foi uma informação perturbadora). Antes que eu me desse conta já havíamos chegado à casa de Áries e ele estava me oferecendo novamente seu braço para outro teletransporte, Mas dessa vez eu não desmaiei.
– O que você quer aqui, homem, responda de uma vez! – A voz grave de um guarda me puxou de volta a realidade. “Santo Deus! Eu apaguei durante todo o caminho da casa de Aquário até o salão do Mestre!”
– Eu vim ter uma audiência com o Mestre. Sou Matheus, cavaleiro de ouro de Aquário.
Sem falar nada ele entrou e alguns segundos depois voltou.
– Você pode entrar.
Ao entrar no salão a primeira coisa que notei foi que a temperatura havia caído, como se o local tivesse com o ar-condicionado ligado, porém eu sabia que isso era obra do mestre, que estava em pé na minha frente com os braços abertos.
– Ora, ora, Aquário, faz muito tempo desde o nosso último encontro. Se não me engano você estava numa cama de hospital! – Disse ele, me puxando para uma abraço.
– HAHA! Engraçado! Eu tinha acabado de derrotar o portador da armadura de Hades e cumprido aquela merda de profecia que quase me matou.
– Você tem razão, me desculpe. E eu o parabenizo muito por isso. Vamos até o salão de Athena, e você poderá me contar o que veio fazer aqui na Grécia.
Andamos por uma porta que ficava atrás do trono. Do outro lado da porta havia um amplo espaço a céu aberto onde se encontrava uma estátua representando Athena. Era um lugar realmente impressionante, dava pra ver todas as doze casas, as montanhas e as vilas em volta do santuário de lá de cima. O por do sol tornava a vista mais impressionante ainda. “Eu levei quase três horas subindo aquelas escadas.”
– Então, a que devo a honra da visita do meu aprendiz favorito? – Perguntou ele.
– Sou seu único aprendiz. E vim aqui por causa da portadora da armadura de Athena. Eu a encontrei, ela é irmã da amazona de Virgem, Lays.
Ele ficou em silencio por alguns minutos e então disse:
– Ela é brasileira. Isso explica por que todos os cavaleiros têm nascido naquele lugar e porque todos os ataques então se concentrando lá.
– Isso mesmo. Todos os cavaleiros de ouro, incluindo eu, estão muito preocupados, achamos que a aparição dessa garota significa que haverá mais guerra.
– E acertaram. Vai haver mais guerra sim.
– Eu queria saber se o senhor tem alguma idéia de quem será nosso próximo inimigo.
– Pra falar a verdade eu não faço idéia...
– Mestre! – A voz de um soldado apareceu de algum lugar à nossa esquerda – Mestre! É o oráculo! Ela vai soltar outra profecia!
– Você deu sorte, garoto. Parece que sua vinda até aqui não será em vão. Acompanhe-me .
O Mestre me guiou até uma porta que eu ainda não havia percebido. Atrás da porta havia um quarto bem pequeno, com uma cama e uma cômoda, sentada na cama havia uma mulher aos berros. Ela gritava como se algo estivesse se mexendo dentro e prestes a sair pela boca. Automaticamente eu fui até ela para ver se podia ajudar em alguma coisa.
– Você não pode fazer nada. Fique onde está.
Eu não estava mais agüentando ver aquela mulher sofrendo e sem poder fazer nada. Quando eu estava prestes a desobedecer o Mestre ela parou de gritar e caiu no chão quase no mesmo instante em que começou a flutuar fantasmagoricamente. Ela abriu os olhos e eles emitiam um tipo de luz verde, como se fosse uma lanterna. A voz que saiu de sua boca era estranha, tinha uma coisa eletrônica, meio robótica.
Fogo!
O amor se torna ódio,
Por meio do fogo.
A ira não será saciada,
Até que um morra e o outro sofra!
O retorno dos cinco guerreiros
Simbolizará a esperança,
Com a ajuda do ultimo herói,
Também poderá simbolizar vitória.
E, quando a falta de fé
Estiver prestes a por tudo a perder.
A ajuda chegará.
E esquecendo a honra,
A guerra terá, enfim, uma chance de acabar.
Eu estava pálido, sentia isso. E pelo jeito como o Mestre me olhava eu estava certo.
– Você está bem, Aquário?
– Eu não sei. – Respondi.
– Vamos, venha jantar comigo e nós poderemos conversar.
Ele me guiou de volta ao Salão do Mestre e de lá para uma parte da casa que também me era desconhecida. A sala era ampla e havia uma enorme mesa de pedra coberta por uma toalha branca. A mesa tinha quatorze lugares, o que me deixou confuso.
– No passado, o grande Mestre costumava celebrar nesta sala junto com os cavaleiros de ouro e a portadora da armadura de Athena. – Explicou o mestre. – Sente-se, o jantar logo será servido.
Ele se sentou na ponta da mesa e eu me sentei na cadeira ao lado. Ficamos em silêncio por alguns instantes em que o mestre ficou me observando atentamente, o que era muito desconfortável.
– Isso que você presenciou agora, foi o Oráculo fazendo uma profecia. E pela sua cara de preocupado acho que você entendeu alguma coisa do que ele disse. Estou certo?
Eu não confiei na firmeza da minha voz, então simplesmente balancei a cabeça.
– Foi o que pensei. Você pode me dizer o que entendeu? Eu quero ver se chegamos às mesmas conclusões.
– “O amor se tornará ódio por meio do fogo.” Acho que está bem claro que o inimigo é algum portador que tem algum tipo de poder sobre o fogo, e eu só consigo pensar em um. Apolo. Então Apolo é o nosso próximo inimigo, o que já é motivo para muita preocupação, diga-se de passagem. “A ira não será saciada até que um morra e o outro sofra.” Isso me faz pensar que ele irá atacar duas pessoas em particular. Uma delas ele quer matar, a outra ele fará sofrer, o que, na minha opinião, deve ser bem pior do que a morte. “O retorno dos cindo guerreiros simbolizará a esperança.” Essa é parte boa dessa merda toda. Pegaso, Dragão, Cisne, Andrômeda e Fênix renascerão pra ajudar na batalha... – Eu não consegui continuar.
– “Com a ajuda do último herói também poderá simbolizar vitória.” – Continuou o Mestre por mim. – Essa parte da profecia é sobre você, de novo. Você foi o herói da ultima guerra, você quem derrotou o portador da armadura de Hades.
– Eu já estou cansado dessa porra toda! – Não consegui me controlar, eu estava gritando de frustração. – Por que tem que ser sobre mim?! Eu não pedi nada disso!
– Você tem uma escolha, meu jovem. – Falou o mestre com a voz mais calma do que nunca. – Você pode escolher chutar o balde e deixar tudo isso pra lá, permanecer neutro nessa guerra. Mas, como toda escolha, haverá conseqüências. Além disso, permanecer neutro na guerra não o privará de seus males.
Eu sabia disso. Mas mesmo assim eu estava me sentindo atraído pela idéia de não lutar, eu nunca gostei desse tipo de coisa. “Porque eu aceitei ser um cavaleiro mesmo?” Com esse pensamento, me veio na memória à imagem do rosto da minha mãe, do meu pai, da minha irmã e por último, mas não menos importante, de Lays. Foi por todos eles que eu aceitei ser um cavaleiro. Eu tinha que arrumar uma maneira de protegê-los. Eu me culparia pela eternidade se algo de ruim acontecesse a eles por causa de uma decisão errada da minha parte.
– Eu não vou fazer isso. – Disse, voltando a me controlar. – Eu não posso. Existem pessoas que e preciso proteger. Minha família, meus amigos. Todos os cavaleiros de ouro entraram nessa por minha causa. Eu não posso simplesmente fugir e deixá-los com o peso do mundo nas costas. Esse é o meu fardo.
– Eu sabia que diria isso. Então me diga. Está pronto para assumir o destino do mundo, mais uma vez? Está pronto para assumir essa responsabilidade?
– Estou! – Falei com firmeza.
– Não esperava menos de você. – Disse o Mestre, sorrindo. – mas ainda há a última parte da profecia. O que me diz sobre ela?
– Eu não entendi muito bem essa parte. E acho que nem vou entender até que ela aconteça. O senhor entendeu?
– Pra falar a verdade, sim. Mas e não quero estragar a surpresa. – Falou ele, em meio a gargalhadas. Meu bom e velho Mestre, uma das poucas pessoas que soltava esse tipo de piada no meio de uma guerra iminente.
Meu estomago roncou, eu olhei no meu relógio e vi que no Brasil já era mais de duas horas da tarde, e eu não tinha almoçado. Como que guiado pelos meus pensamentos o jantar chegou. E o cheiro estava delicioso.
– Coma. Depois você poderá ir.
Ele não precisou falar duas vezes. A comida estava tão gostosa quanto o cheiro e eu me estufei. Comi como nunca havia comido na minha vida, e olha que isso não é pouca coisa.
Após o jantar o mestre me acompanhou até a saída do Salão.
– Volte para casa e mande lembranças à todos. Especialmente para Virgem.
– Posso saber o motivo disso. – Perguntei, surpreso. Por essa eu sinceramente não esperava.
– Ora, eu tenho que ser simpático com a namorada do meu pupilo! – Falou ele, surpreendendo mais uma vez. Eu fiquei vermelho e ele começou a rir. – Pelo jeito você subestima as minhas fontes. Mas, agora, falando sério. Peça para ficarem atentos, e que descubram, o mais rápido possível, quem serão os cinco guerreiros de bronze. Me comunique assim que os tiverem encontrado. Mais uma coisa, quero que Sagitário treine Pegaso, Libra treine Dragão, você treine Cisne, Virgem treine Andrômeda e Leão treine Fênix. Entendeu?
– Na verdade isso é bem obvio mestre. – eu falei, revirando os olhos. – Mas, sim. Eu entendi.
– Ótimo. Boa viagem. E que Deus o acompanhe.
– Obrigado Mestre.
Com um último abraço de despedida eu comecei a descer a escadaria que levava a casa de Peixes. Eu tinha certeza de três coisas. A primeira: Minha viagem até a Grécia, com certeza, não havia sido em vão. A segunda: Essa guerra seria bem mais difícil do que eu imaginava. E terceiro: Eu não tinha certeza de mais nada. Atravessei a saída da casa de Peixes resmungando sobre construção de elevadores.
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