Lembranças da minha última batalha ainda me vinham à memória. A forma como cada um dos cavaleiros de ouro me passou um pouco de sua energia vital e um pouco do seu cosmo para que eu despertasse o poder da Kamui era reconfortante e ao mesmo tempo perturbador. Digo perturbador, pois meu melhor amigo, Eduardo (antigo cavaleiro de Áries), se sacrificou no processo de transferência ao me passar toda sua energia vital. Sei que sem esse sacrifício teria sido quase impossível derrotar o portador da armadura de Hades, mas mesmo assim eu me entristecia ao lembrar disso. Era como se faltasse um pedaço de mim.
– Bebê, você ta me ouvindo? – A doce voz de Lays (atual amazona de virgem e minha “quase namorada”) chegou aos meus ouvidos como um choque de realidade, interrompendo meus devaneios nostálgicos.
– Foi mal, eu apaguei. Você disse alguma coisa?
– Eu disse que nós temos um pequeno problema pra resolver antes de assumirmos nosso namoro, né?
– Não sei se “pequeno” é a definição correta para o problema...
– É, acho que não é mesmo! – Falou ela, rindo. O som da sua risada era como um acalanto pra mim. A sensação boa que aquele som me causava era inexplicável, e ali, sentados no sofá da sua casa e assistindo a um filme que eu nem me dera o trabalho de perguntar o nome, eu me lembrava de uma coisa que eu já sabia há muito tempo. Eu a amava e não deixaria nenhum problema, fosse ele grande ou pequeno, ficar no nosso caminho.
– Você vai falar com Erik? – Perguntei.
– Eu não sei. Isso é o que eu devia fazer, mas ele vai ficar muito magoado. Ele é meu amigo e eu não quero fazer isso.
– Amor... Sempre que um casal se forma, alguém de fora é magoado. Meus pais magoaram alguém pra ficarem juntos, apostos que Bia e Vitor magoaram alguém pra ficarem juntos... Infelizmente a vida é assim. – Seu rosto pareceu triste ao reconhecer a verdade nessas palavras.
Erik era um amigo de Lays, desde muito tempo, e ele gostava dela. Mas, para ela, ele era como um irmão, nada mais que isso.
– Eu sei... – disse ela, parecendo conformada. – Só espero que ele reaja bem a tudo isso.
Esse era um dos motivos pelos quais eu viera a me apaixonar por Lays. Seu coração era tão absurdamente grande que era difícil acreditar que cabia dentro do peito.
Eu comecei a encará-la, como sempre fazia quando estávamos assistindo algum filme, mas, desta vez, ela não se fez de difícil, apenas encostou sua testa na minha e me olhou nos olhos. Quando ela fazia aquilo era como se pudesse enxergar no fundo da minha alma, e, por incrível que pareça, eu não me sentia desconfortável com aquilo. Nossos rostos foram se aproximando até nossos lábios se encontrarem num beijo suave, porém contido, pela culpa que ela sentia por estar magoando o amigo.
Naquele momento escutamos a som de batidas impacientes na porta, eram tão rápidas que chegava a ser irritante.
– Minha Pequena chegou. – Disse Lays, revirando os olhos. – Nunca consegue esperar mais de cinco minutos. Vem, eu quero que ela te conheça.
Andamos de mãos dadas em direção à porta, e, ao abri-la, me deparei com uma menininha baixinha que aparentava ter uns cinco ou seis anos de idade. Seus cabelos eram ondulados e claros e batiam na altura dos ombros, usava um vestidinho branco com várias rosas desenhadas. Ao ver a irmã, a garotinha deu um pulo de alegria e a abraçou como se como se tivessem passado anos desde o último encontro das duas. Em meio ao abraço das irmãs eu percebi algo de diferente em Lays. Ela relaxou. Ficou calma como eu jamais a vira ficar desde que nos conhecemos, como se toda a tensão tivesse evaporado dos seus ombros.
– Minha Pequena – disse Lays. – Esse aqui é o Matheus. Amor, essa é minha irmãzinha caçula, Larissa.
A garota me olhou como se tivesse reparado só agora que eu estava parado lá, ela ficou imediatamente vermelha.
– Oi, Larissa. – Falei, tentando parecer simpático (o que não era meu forte quando se tratava de crianças). – Tudo bem? – Ela respondeu com um breve aceno de cabeça. – Bate aqui – falei estendendo a mão. A principio ela pareceu atraída pela idéia de deixar minha mão estendida e passar direto, mas depois ela lentamente encostou sua mão na minha. E foi aí que eu senti.
O cosmo que eu senti no interior da garota quando nossas mãos se encontraram foi extremamente poderoso, superava o de qualquer cavaleiro de ouro. Acima de tudo aquele cosmo era bom. Indescritivelmente bondoso, ele emanava uma paz de espírito tão grande que chegava a ser impossível pensar em qualquer problema com relação à Erik ou no pesar pela morte de Eduardo.
Quando ela tirou sua mão da minha eu reparei que estava de joelhos e a garotinha sorria para mim. Tentei olhar mais fundo nos olhos dela e foi aí que eu percebi uma coisa que mudaria o destino de todos os cavaleiros desta geração. Uma notícia que traria alegria e ao mesmo tempo um agouro de morte.
– Precisamos conversar! – Falei para Lays com mais urgência na voz do que o esperado.
– Pequena, vai tomar um banho e trocar de roupa, quando você terminar eu ponho seu jantar.
Larissa foi andando em direção ao ser quarto sem falar uma única palavra.
– O que foi? – Perguntou Lays parecendo preocupada.
– Vamos lá pra calçada.
Ao sairmos de casa eu percebi que já estava escurecendo. As nuvens tinham uma tonalidade avermelhada e a linha do horizonte cortava o sol ao meio, uma leve brisa bagunçava nossos cabelos.
– Você já sentiu o cosmo que a sua irmã tem? Já percebeu o quão poderoso ele é? – Perguntei.
– Claro que já. Mas nunca pensei que fosse nada de mais, afinal, você mesmo disse que crianças tinham um cosmo altamente poderoso.
De fato ela tinha razão. Crianças apresentavam um cosmo acima do normal, todos nascem com um cosmo dentro de nós, é ele que, junto ao leite materno, nos mantém vivos nos primeiros meses e nos acompanha até os seis anos de idade. Ao chegarmos nessa idade o cosmo pode simplesmente sumir ou continuar conosco, se continuar significa que a criança está apta a se tornar um cavaleiro. Mas isso raramente acontece hoje em dia.
– Sim, está certo. Mas o cosmo da sua irmã não é como o de uma criança comum. É infinitamente maior, supera o de todos os cavaleiros de ouro.
– O que isso significa? – Perguntou ela, parecendo aflita.
– Significa que ela é a portadora da armadura de Athena. E é nosso dever, como cavaleiros, protegê-la.
– Mas protegê-la do que? Eu achei que, quando você derrotou Guilherme, estivesse tudo acabado.
– Era o que eu também pensava. Mas com a aparição da sua irmã eu posso dizer com certeza que vem mais.
– O que nós faremos?
– Eu vou convocar uma reunião com o restante dos cavaleiros de ouro. Temos que nos preparar e treinar mais cavaleiros de bronze e prata. Depois eu vou à Grécia falar com o Mestre.
Ela torceu a boca e fechou os olhos como sempre fazia quando estava prestes a chorar. Eu me aproximei lentamente e envolvi sua cintura com meus braços, ela encostou sua cabeça no meu peito e eu senti suas lágrimas molhando minha camisa.
– Não se preocupe meu anjo, nós vamos protegê-la, nada de ruim irá acontecer com ela. – Falei, na tentativa de acalmá-la.
– Não é isso... É que guerras são brigas muito feias, e eu nunca quis envolver Larissa nisso. Além de você, ela é a única pessoa que faz com que eu me sinta realmente bem.
Depois disso eu não soube o que dizer (isso sim era irritante, eu sempre soube o que dizer e não poder dizer nada era realmente irritante). Ela estava coberta de razão, guerras eram coisas horríveis, foi numa guerra que eu perdi meu melhor amigo. Mas, em tempos como esse, era uma coisa inevitável.
– Tenha esperança e fé. Tudo vai dar certo, você vai ver.
Ela me olhou nos olhos e me beijou mais uma vez. Depois do que me pareceu um espaço muito curto de tempo pro meu gosto, ela teve um sobressalto e exclamou:
– Meu Deus! O jantar da minha pequena!
– Ela já deve ter sumido de tanta fome. – Falei em tom de brincadeira, ela deu uma tapinha no meu peito. Já tinha escurecido. – Vá alimentar sua irmã, eu tenho que ir, já escureceu. Não esqueça reunião amanhã na sala trinta e seis, será de manhã então acorde cedo. – Falei. Depois dei um beijo rápido em seus lábios. – Eu te amo.
– Eu te amo bem mais.
Sorri vendo entrar em casa. Olhei para o céu, me concentrei um pouco e fechei os olhos para a desconfortável sensação de cair em um buraco enorme que era o tele transporte.
Ao abrir os olhos me deparei com o cenário familiar do meu quarto. Era um quarto relativamente espaçoso principalmente pelo fato de não haver muita coisa nele. Fiquei de ouvidos atentos para ver se havia alguém em casa e fiquei aliviado em constatar que não havia ninguém, seria bem difícil explicar pros meus pais como eu havia aparecido do nada no meu quarto.
Tirei o celular do bolso da frente da minha calça e comecei a ligar para os cavaleiros de ouro para avisar sobre a reunião de última hora.
Após a última batalha, contra os espectros de Hades, os cavaleiros de ouro sofreram duas baixas: Meu melhor amigo Eduardo, e Dhiego de Sagitário. Eu ainda não conseguia pensar na perda de Eduardo sem ficar com os olhos marejados de lágrimas. Já a morte de Dhiego era algo que me deixava nauseado. Após três espectros atacarem a mim, a ele e a Soraya de Peixes, Dhiego fingiu sua morte. Depois de alguns dias eu me encontrava com meu antigo companheiro, ele usava uma sapuri que imitava o formato da armadura de Sagitário. “Eu cansei de lutar por uma causa perdida! E passei para o lado que ganhará essa merda toda! Não me importo com os outros, se eu continuasse lutando com os cavaleiros eu certamente morreria!”
A raiva que cresceu em mim naquele momento foi algo que me surpreendeu. Após uma batalha difícil e que, a meu ver, durou dias, Dhiego caiu de joelhos na minha frente, congelado dos pés a cabeça. Depois que tudo acabou, encontramos dois substitutos. Lizandra, uma velha amiga, ocupou o posto de Áries, e minha irmã Mariana, ocupou o posto de Sagitário.
Depois de confirmar a reunião com todos os cavaleiros fui à cozinha, preparei um lanche rápido e fui tentar dormir um pouco. Ainda me revirei muito antes de conseguir dormir.
Acordei de repente com uma dor horrível nas costas, ao levantar a cabeça vi minha irmã com um rosto que transbordava impaciência.
– Por que você bateu nas minhas costas? – Perguntei em meio a um gemido de dor.
– Por que você marcou uma reunião num domingo de manhã se ia ficar aí dormindo?! – A devolveu, com aquele típico e irritante jeito de “pré-aborrecente”. – Todo mundo já está lá!
– Me desculpe! – Exclamei dando um pulo da cama ao perceber que já eram mais de dez horas. – Volta pra lá e avisa o pessoal que eu chego lá em dez minutos, só vou tomar um banho rápido!
– Anda logo! – Gritou ela, antes de desaparecer.
Corri para o banheiro, tomei um banho rápido, fui à cozinha peguei um pãozinho e saí porta afora. Ao cruzar a esquina e ter certeza que ninguém estava olhando, fechei os olhos.
Ao abri-los encontrei conhecido cenário da portaria do Instituto. Desde que as férias tinham começado nós fazíamos nossas reuniões ali, era seguro, pois, como não era período letivo, não havia ninguém lá.
Chegando à porta da sala me assustei ao encontrar uma Lays com uma cara horrível de quem dormiu pouco e de mau jeito.
– “Reunião... Acorde cedo...” – Disse ela, fazendo uma péssima imitação da minha voz.
– Me desculpa meu amor – falei com a voz mais falsamente envergonhada que consegui. – Ah! Você está linda!
– HAHA! Muito engraçado! Entra logo antes que alguém venha aqui fora e arranque sua cabeça!
Quando entrei na sala o círculo já estava formado e eu fui recebido por uma chuva de aplausos e gritos de “Aleluia!”. Não consegui me conter e comecei a rir.
– O que deu em você pra convocar uma reunião num domingo de manhã?! Seu cérebro finalmente congelou?! – Risos e gargalhadas acompanharam a piada de Claudino de Capricórnio.
– Me desculpem pessoal, mas é importante.
– É melhor mesmo! Tive que inventar uma desculpa muito boa pra sair de casa tão cedo. – Reclamou Rayssa de Escorpião.
– Enfim. Eu tenho uma boa noticia e uma má noticia. A boa é que eu encontrei a portadora da armadura de Athena.
Várias exclamações de surpresa e alegria acompanharam a boa noticia. Mas meu olhar se dirigiu a um cavaleiro em particular. Rafael de Libra parecia pensativo preocupado e até mesmo triste.
– E qual é a má noticia? – Perguntou John de Touro.
– Ainda tem mais, não é? – Falou Rafael. – A má noticia é que, com o aparecimento dessa garota, significa que haverá mais guerra.
A sala caiu num silencia mortal. Nenhum traço da alegria e descontração, que estavam presentes quando eu cheguei, sobrou para contar a história. Todos esperavam uma confirmação da minha parte.
– Sim, você tem razão. Vai haver mais guerra. – Respondi.
– Espera aí. Pensei que Hades tinha sido o último! – Exclamou Miguel de Gêmeos.
– E eu também pensava, mas não é assim. E isso nos leva a o ponto final desta reunião. E quero que vocês fiquem atentos à possíveis futuros cavaleiros de prata e bronze. Se encontrarem, arrumem um jeito de explicar a situação, mas peguem leve pra eles não pensarem que vocês são uns loucos e lunáticos. Eu irei agora me tele transportar para a Grécia pra falar com o Mestre. Por enquanto isso é tudo que podemos fazer.
– Quem você acha que é dessa vez? – Perguntou Carol de Leão.
– Olha, eu realmente não faço à mínima idéia. Mas sinto que vou descobrir alguma coisa na Grécia.
O silencio permaneceu. Eu entendia todos eles. No começo alguns até gostavam do poder que tinham, mas depois do que aconteceu a Eduardo e a Dhiego eles passaram a entender que o perigo que vinha junto com esse poder era real. Mas ninguém se arrependeu de ter aceitado esse poder, na verdade todos sabiam que, com ele, poderiam proteger aqueles que amam dos males que a guerra traz. Isso era o que os tornava mais poderosos.
– Certo – eu disse, quebrando o silencio – Reunião encerrada, vocês podem ir.
Todos saíram no mais absoluto silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Depois que todos estavam saindo e eu estava me preparando para ir também, Lays veio até mim.
– Eu resolvi falar com Erik hoje. – Disse ela, me pegando de surpresa. – Ele vai lá em casa a tarde pra agente conversar.
– Você sabe o que vai falar? – Perguntei.
– Não faço à mínima idéia. Mas ficar parada não vai ajudar em nada.
– Então ta. Boa sorte com ele. – Falei enquanto a abraçava.
– E você, boa sorte com o Mestre. Espero que consiga descobrir quem será o nosso adversário dessa vez. E cuidado!
Sorri pra ela. O fato de saber que ela se preocupava comigo era muito importante, eu me sentia bem com aquilo. Ficamos ali por alguns momentos abraçados apenas curtindo a presença um do outro. Até que eu disse:
– Eu tenho que ir quanto mais cedo eu chegar lá, mais cedo eu volto.
– Boa sorte. – Ela disse me beijando de leve.
Eu a vi sair da sala e fechar a porta. Eu fechei um pouco os olhos, me concentrei, e abracei a conhecida, porém horrível, sensação de queda.
Bom gente é isso, esse foi o primeiro capítulo da Fanfic,semana que vem tem mais, aguardem...
legal cara
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