domingo, 23 de outubro de 2011

Capítulo 13 - Raiva

Lizandra de Áries.

            Lizandra corria em alta velocidade ao longo do que lhe pareceu ser a Av. Padre Cícero. Depois da luta com Felipe, na qual ele havia lhe cegado ela havia ficado desnorteada, confusa e sem saber direito o que fazer. O que lhe ajudou a superar tudo isso foi à aparição de Erik no auditório. O poder que ele emanou naquele momento foi tão grande que mostrou para Lizandra outra forma de enxergar. Tudo que ela precisava era se concentrar no cosmo do adversário, e quase criava forma na sua frente, era como se ela voltasse a enxergar.
            Quanto ao que estava ao seu redor era tudo uma questão de aguçar o restante dos outros sentidos.
            Agora ela corria procurando por um adversário. Ou melhor, procurando pelo adversário. O único que ela queria enfrentar era Felipe. O garoto que seqüestrou Larissa, e que a fez ficar cega. Ele fez com que ela ouvisse a coisa mais aterrorizante que já experimentara. “TITIA!” O grito agudo que ela ouviu após o barulho de janelas se estilhaçando ainda era vivo em sua mente. E ele iria pagar por isso.
            E não só pela dor que ele causou a ela. Mas pela dor que causou a Lays, como se ela já não se preocupasse com coisas de mais.
            Ela parou sua corrida percebendo e estava parada em cima da linha do trem. Ela não soube por que mais alguma coisa a fez seguir o caminho da linha férrea. Ela então caminhou num passo rápido ao longo da linha. Ela não fazia a menor idéia de que horas eram, mas tinha certeza de que já passava da meia noite. Ela também não tinha certeza se o trem passava a essa hora, mas isso não tinha a mínima importância.
            Enquanto seguia ao longo da linha férrea ele notou o desaparecimento do cosmo de John, o que a preocupou, mas relaxou ao perceber a explosão do cosmo de Rafael e de Victon vindo do mesmo local, o que significava que ela não precisaria ir até lá para verificar.
            E depois de quase vinte minutos de caminhada, ela pôde sentir o cosmo familiar que tanto procurava. Estava parado bem na sua frente, ao se concentrar ela viu uma silhueta se formar na sua mente e teve certeza que o garoto da armadura de argolas estava bem na sua frente.
            – Até que enfim eu te encontrei. – Lizandra falou na direção daquele cosmo.
            – Pensei que eu tivesse te cegado. Como recuperou a visão? – Perguntou aquela voz calma.
            – Não seja tolo. Você está vendo que meus olhos estão fechados. – Rebateu Lizandra. – Eu só aprendi a enxergar sem precisar dos olhos.
            O silêncio pairou sobre os dois enquanto ninguém se mexia. Após alguns segundos Lizandra pôde sentir a aproximação lenta do inimigo. Quando eles estavam bem próximos, com um movimento rápido Lizandra lhe acertou um soco na cara. Ele não fez nada para se defender, mas se distanciou.
            – Então você não está blefando, é mesmo verdade. – O humor na sua voz era inconfundível. – Mas você acha mesmo que vai conseguir me derrotar? Mesmo que tenha aprendido a enxergar sem os olhos?
            – Porque você não vem e luta comigo pra descobrir?
            Felipe ficou parado por alguns segundos e em seguida partiu para cima de Lizandra com velocidade total desferindo uma seqüencia de chutes e socos. Lizandra, apesar da cegueira, pôde ver todos eles e desviar da maioria.
            Ele tentou desferir um chute na lateral do estomago de Lizandra, mas essa era a abertura da qual ela precisava. Ela segurou a perna que estava lhe atacando e lançou o inimigo no chão, ela sabia que ele rapidamente se levantaria, e assim foi feito, mas ele se levantou tonto e atordoado, o que foi a oportunidade perfeita para Lizandra. Com uma velocidade muito alta ela desferiu uma seqüencia de socos no seu estomago, sem dar a oportunidade de defesa.
            O último golpe foi o mais poderoso, veio recheado com uma camada forte de energia, que fez com que Felipe fosse jogado a alguns metros na linha férrea.
            Lizandra sentiu o olhar frustrado de Felipe se dirigir a ela. Ele caminhou alguns passos em direção ao seu inimigo, mas não se aproximou de mais. Ele continuava a observá-la sem proferir uma única palavra.
            – Como você faz isso? – Felipe finalmente falou. – Como consegue, mesmo sem enxergar, seu poder não diminuiu, muito pelo contrário, está diferente... Mais concentrado, mais poderoso...
            – Há boatos de que, na última geração, o cavaleiro de Virgem se privava de sua visão para concentrar mais o seu poder... Aquilo o deixava mais poderoso do que qualquer outro cavaleiro. O mesmo aconteceu comigo... Sem a visão, meu poder se concentra melhor, isso me deixa mais poderosa.
            – Ah é? Vamos ver se isso é realmente verdade.
            Felipe se levantou de um pulo e se pôs na posição do Megaman. Lizandra percebeu o que ele iria fazer, mas não se mexeu.
            – RAIO SOLAR!
            O raio de energia brilhante veio para cima dela a toda velocidade, mas ela não se mexeu quando ela estava próxima Lizandra conteve toda a energia do golpe entre suas mãos.
            – Fato sobre cavaleiros: Não se usa o mesmo golpe mais de uma vez!
            Dizendo isso ela descarregou a energia armazenada de volta para seu criador, que recebeu o impacto do golpe com potência total, ao que parecia a surpresa por Lizandra ter, não só segurado o seu golpe, mas também voltado contra ele, o deixou paralisado de mais para se defender.
            – Vamos lá, se levante. Eu sei que esse golpe não é o suficiente para acabar com você! – Gritou Lizandra para seu inimigo caído.
            Ele tremeu e se levantou. Lizandra podia sentir que seu cosmo, apesar dos danos sofridos continuava, não só o mesmo, como teve um leve aumento, talvez pela frustração, ou raiva.
            – Isso é impossível. – Felipe falava mais consigo mesmo do que com Lizandra. – Como ela conseguiu fazer isso?
            – Não fique tão impressionado... Porque não se levanta e continua tentando me atacar?
            Ele então se ergueu e voltou a tentar um combate corpo a corpo. Só que esse era diferente do anterior, seus punhos emanavam um brilho intenso e perigoso. A chuva de golpes que se seguiu foi complicada de evitar, alguns golpes até chegaram a queimá-la.
            Houve um momento em que se tornou impossível se defender, os golpes fizeram com que ela caísse de joelhos no chão, enquanto Felipe socava agressiva e continuamente suas costas.
            A raiva por tudo que aquele sujeito a fez passar transbordou tão rápido quanto à chuva de socos que era desferido sobre ela.
            Houve um momento de espera então a aura branca de Lizandra começou a tomar conta de seu corpo, e, com um grito, ela explodiu seu cosmo. O impacto fez com que Felipe fosse atirado mais uma vez, mas, antes que ele pudesse atingir o chão, Lizandra se levantou, saltou com o dedo indicador levantado e gritou:
            – REVOLUÇÃO ESTELAR!
            A energia gerada pelo poder da técnica tomou a forma de milhares de estrelas, e com o comando de Lizandra foi atirado para cima do filho de Apolo. Que recebeu o impacto com potencia total.
            Seu corpo agora estava tremendo e sangrando. Por um instante ele teve dificuldades de se pôr de pé, mas conseguiu fazê-lo.
            Lizandra caminhou lentamente até seu inimigo. Que a olhava atentamente.
            – Está doendo? – Perguntou Lizandra. – Você pensa que essa dor que você sente se compara a dor que eu senti quando você seqüestrou Larissa? Ou melhor, você acha que essa dor que você sente se compara com a que minha amiga Lays, irmã de Larissa, sente? – Ele não respondeu. – Você não sabe o que é a dor.
            Lizandra levantou a mão com os dedos indicador e médio erguidos, pronta para cegar o seu oponente, mas uma mudança no ambiente fez com que ela parasse.
            O chão estava começando a tremer, mas isso não era causado por Felipe, Lizandra podia sentir que ele estava tão confuso quanto ela. Mas então a verdade tomou conta dela. E era obvio. Eles estavam em cima da linha férrea, pelo jeito o trem realmente passava de madrugada, e ele estava vindo na direção deles agora.
            Lizandra não perdeu tempo, partiu para cima do trem, passando pelo seu adversário.
            – Aonde você pensa que vai?! – Gritou Felipe quando ela passou por ele. – Onde?!
            Lizandra podia sentir que as vibrações no chão ficavam mais fortes à medida que se aproximava. Quando julgou suficiente ela saltou para pousar no teto do trem. Ela não teve muita dificuldade para se equilibrar.
            Depois de alguns segundos a voz de Felipe chegou aos seus ouvidos.
            – Muito inteligente da sua parte. – Ele falou. – Por um instante pensei que você estivesse fugindo.
            – Fugindo? De você? – Disse Lizandra sarcasticamente. – Não me faça rir! Você não está em posição de tirar onda da cara de ninguém, é você quem está ferido!
            Lizandra pôde sentir a raiva dando forças a Felipe. Ele veio para cima dela com tudo. A batalha foi violenta, nenhum dos dois se entregava. Porém Lizandra não usava de todo o seu poder, ela meio que brincava com seu inimigo, apenas para frustrá-lo.
            Em meio à troca de socos Lizandra se lembrou do que estava para fazer antes do trem interrompê-la. Desviando de um soco com uma tapa, ela segurou firme no pescoço de Felipe e disse:
            – Vou continuar o que eu estava prestes a fazer.
            Dizendo isso ela ergueu novamente os dedos e atirou-os contra os olhos de Felipe que por sua vez berrou de dor. Lizandra pode sentir o sangue espirrando em seu rosto. Ela então o jogou de volta no teto do trem, se contorcendo e berrando.
            – Ótimo. – Disse ela por cima do barulho dos trilhos. – Agora estamos lutando de igual para igual. Talvez nem tanto. Vamos levante-se e lute! Você não se julga tão capaz de acabar comigo.
            Risadas maléficas saíram da boca de Felipe e Lizandra pôde sentir que ele se levantava lentamente.
            – Tem razão... Não é tão complicado assim... – Disse ele. – Você é realmente uma amazona poderosa, garota.
            – Porque você diz isso agora? – Perguntou Lizandra.
            – Sua cosmo-energia é realmente formidável, agora eu entendi como é enxergar sem os olhos. Vamos ver como eu me saio num combate corpo a corpo.
            Ele partiu para cima de Lizandra. Eles rolaram para o final do vagão e Felipe segurou o pescoço de Lizandra de forma que ele ficasse pendurado na borda.
            – Agora, você está derrotada! Com apenas um movimento eu quebro seu pescoço!
            O erro dele foi parar para conversar, o que deu tempo suficiente para Lizandra reunir um pouco de energia na palma da sua mão e descarregá-lo no estomago de Felipe, que foi jogado para trás.
            Lizandra esfregou um pouco o pescoço que estava dolorido por causa do aperto.
            Agora a coisa tinha ficado seria. Lizandra não havia pensado na possibilidade dele aprender a enxergar sem os olhos numa velocidade tão surpreendente. E o que é pior, ele havia entendido como usar a cegueira como uma forma de deixar seu cosmo mais poderoso. Ela não poderia mais brincar.
            Ele se levantou um pouco atordoado e Lizandra não perdeu tempo, antes que ele pudesse se reerguer totalmente ela flutuou até ele e desferiu um soco na cara, quando pegava impulso para desferir o segundo, ele se abaixou, evitando do golpe. Ele saltou, girou e desferiu um chute no rosto de Lizandra, que evitou com o braço esquerdo, reuniu um pouco de energia e, mais uma vez, descarregou-a no estomago do inimigo. Ele recuou, mas não foi ao chão.
            Lizandra começou a sentir o cosmo de Felipe aumentando numa velocidade inumana. Ele agora corria na direção de Lizandra. Ele a empurrou e juntos eles caíram do trem. Ela ficou um pouco tonta e atordoada e ao que parecia ele havia caído perfeitamente em pé.
            – Então uma mesma técnica não funciona num cavaleiro? Vamos tentar uma coisa diferente.
            Ele então segurou Lizandra pelo pescoço e a ergueu. Seu cosmo foi dirigido para as pernas e eles levantaram vôo. O ar começava a ficar mais frio e rarefeito Lizandra tinha dificuldade para respirar. Então o poder dele começou a esquentar e queimar o corpo de Lizandra aos poucos.
            – SUPER-NOVA SOLAR!
            Uma enorme explosão começou a se formar no interior de Felipe e começou a se expandir.
            – Ficou louco?! Nós dois vamos morrer!
            – Não minha cara... Eu sou um filho de Apolo, não posso morrer por meio de fogo... A única que vai morrer aqui é você!
            Antes que Lizandra pudesse gritar a dor tomou conta de seu corpo. E uma grande explosão foi emanada.
            Cada parte do corpo de Lizandra foi queimada e ardia como nunca antes, ela tinha certeza de que só estava viva graças à proteção da armadura de ouro ela teria morrido.
            Lizandra pôde sentir a mão de Felipe afrouxando o aperto e soltando-a. Ela começou uma queda livre o ar tampava completamente seus ouvidos, a única coisa que ela podia ouvir era o vento.
            “Não acabou! Não enquanto eu estiver respirando! Lays está lá, enfrentando o mundo pela sua irmã, ela não vai desistir assim tão fácil, e eu também não!
            Esse pensamento deu forças extras para Lizandra, seu cosmo agora brilhava intensamente. O poder que ela gerou foi tão imenso que ela sentiu que podia fazer qualquer coisa.
            Com um movimento rápido ela se virou e entrou em posição de pára-quedismo. Planando ela se concentrou um pouco e se tele transportou para onde o cosmo de Felipe estava. Ela caiu com um baque surdo no chão e pode ouvir a voz do filho de Apolo.
            – Como você sobreviveu?
            – Eu não vou morrer enquanto não te derrotar.
            – Tola! Você acredita mesmo que vai me fazer pagar pelo seqüestro daquela garotinha idiota?! – Gritou ele. – Você nunca vai conseguir! Sabe por quê? Porque você é fraca!
            Ódio. A raiva que ela sentia se transformou num ódio que transpareceu tanto no seu rosto quanto no seu cosmo, que brilhava mais do que nunca. Ela sentiu Felipe ficando paralisado.
            – Eu sou fraca? – Perguntou ela contendo um grito. – Como você pode dizer isso? Você não sabe pelo que eu passei para dizer que eu sou fraca! O único fraco aqui é você. Que nunca soube e nunca vai saber o que é a dor real... Você nunca perdeu alguém que você ama! Aliás, eu não sei se você é capaz de amar alguém!
            O cosmo de Lizandra ardia intensamente como nunca havia acontecido, sua aura estava completamente brilhante e plena. E a coisa mais incrível aconteceu com ela, o cosmo estava tão poderoso que ela pôde sentir sua visão voltando.
            Ela se deu ao luxo de abrir os olhos e pôde vê-lo se aproximando.
            – Cale a boca! SUPER-NOVA SOLAR!
            – MURALHA DE CRISTAL!
            Lizandra construiu quatro paredes em volta dele, e a explosão foi contida dentro de um cubo. Ela pode ouvir o grito de frustração de Felipe em meio à fumaça que foi gerada pelo ataque.
            Se arriscando um pouco, Lizandra baixou as muralhas que envolviam Felipe e pôde vê-lo com os olhos fechados e com uma aparência grotesca de quem havia chorado sangue.
            – Viu? Você é o único fraco aqui.
            – Você... Pelo que você luta? – Ele perguntou com a voz fraca. Lizandra pôde sentir seu cosmo enfraquecendo.
            – Para proteger. Não só aqueles que eu amo, mas o resto do mundo, pra que as pessoas possam viver suas vidas e consigam realizar seus sonhos...
            – Você dá sua vida pela de pessoas que você nem conhece? – Perguntou ele com humor na voz. – Tola...
            Lizandra se limitou a olhá-lo. Correu até ele e acertou um chute na sua cara, que o fez cair de bruços no chão.
            – EXTINÇÃO ESTELAR!
            As estrelas envolveram o corpo de Lizandra e, transformando-se numa enorme galáxia foi lançado para o corpo de Felipe envolvendo-o. Com uma grande explosão o corpo de Felipe foi desintegrado.
            Acabou. Lizandra foi acalmando o seu cosmo e, à medida que ele ia diminuindo, sua visão ficava turva até que escureceu completamente e sua cegueira voltou.
            Ela caminhou até a calçada e se sentou. Cada parte do seu corpo tremia, mas ela se sentia satisfeita. Ela havia conseguido destruir Felipe e, como bônus, seu cosmo ganhou um grande poder, o que fazia dela uma amazona mais poderosa do que antes.
            O cansaço físico estava acabando com ela, tanto que ela não conseguiu dar à devida atenção a explosão do cosmo de Rayssa que ela sentiu vindo de algum lugar ao leste. Ela simplesmente se deitou e dormiu.

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